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MensagemEnviado: sexta dez 15, 2017 2:41 am 
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Reinado D.Carlos
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Registado: quarta jan 21, 2015 12:32 am
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Desde há algum tempo que se constatou que alguns Dinheiros de D. Afonso III tinham uma característica que os diferenciava dos demais: as estrelas do anverso tinham notórias semelhanças de estilo com as estrelas dos Morabitinos cunhados nos três reinados anteriores. Daí ter-se começado a utilizar a expressão “Dinheiros com estrelas de Morabitino”. Uma análise mais atenta destes Dinheiros permitiu, contudo, a identificação de mais algumas características que podem, no futuro, individualizar estas moedas como um grupo bem definido dentro do reinado de D. Afonso III.

Dinheiro apresentado pelo forista "Sebastianvs" no Fórum de Numismática a 21-8-2008:
Anexo:
1.png


1. Características tipológicas

1.1 O “S” deitado:
Quase todos os Dinheiros analisados têm o primeiro “S” de ALFONSVS deitado:

Exemplar da colecção Praça:
Anexo:
3.png


Até agora apareceram duas excepções em que o “S” está direito ou em que a inclinação é negligenciável:

Exemplar da colecção Palves:
Anexo:
4.png


Exemplar da colecção Praça:
Anexo:
5.png


Dadas as semelhanças tipológicas destes dois exemplares, podemos supor que o abridor de cunhos será o mesmo, sendo que a única diferença assinalável está no facto de que as estrelas estarem localizadas nos quadrantes pares numa e nos quadrantes ímpares na outra.

1.2 A supressão de letras da legenda a seguir ao “S”:
O facto de o “S” estar deitado e ocupar mais espaço, obrigou os abridores a suprimir uma ou duas letras do resto da legenda. Em quase todos os exemplares falta o segundo “S” de ALFONSVS e, na maioria, falta o “E” de REX (que quando aparece é sempre latino e não uncial).

Exemplar da colecção Rui AMF com o segundo "S" (até agora é uma das duas únicas excepções):
Anexo:
6.png


Legenda "RX":
Anexo:
7.png


Exemplar da colecção Praça com a legenda "REX" e "E" latino:
Anexo:
8.png


1.3 O “X” com quatro punções:
Enquanto que na maioria dos restantes Dinheiros de D. Afonso III o “X” de REX é obtido com apenas um punção, neste grupo estudado o “X” é feito através de quatro punções triangulares que lhe dão uma forma muito distinta dos demais Dinheiros, até agora não se conhecem excepções.

Dinheiro da colecção Praça:
Anexo:
9.png


1.4 A letra "A" de ALFONSVS:
A letra "A" que abre a legenda tem também um estilo distinto dos restantes Dinheiros de D. Afonso III, é constituída por dois punções triangulares que podem estar ligados por um ou dois filamentos ou nem ter qualquer filamento de ligação.

Alguns exemplos de Dinheiros já aqui apresentados:
Anexo:
10.png

Anexo:
11.png

Anexo:
12.jpg


Exemplar da colecção Palves sem o filamento de ligação:
Anexo:
13.jpg


Este estilo apresenta semelhanças com Dinheiros de D. Sancho II.
Exemplares de D. Sancho II da colecção Praça com e sem filamento de ligação:
Anexo:
14.png

Anexo:
15.jpg


Já outros Dinheiros de D. Afonso III sem estrelas de Morabitino apresentam o "A" de estilos diferentes.
Exemplares de outros Dinheiros da colecção Praça:
Anexo:
16.png

Anexo:
17.jpg


1.5 Os besantes do reverso:
A última característica distintiva destas moedas é o facto de os besantes que aparecem nos escudetes do reverso serem quase sempre cinco e estarem dispostos em “V”, portanto, 2+2+1. Até ao momento é conhecida apenas uma excepção que apresenta sete besantes em “V”, 2+2+2+1.

Exemplar da colecção Rui AMF com os besantes em “V”:
Anexo:
18.png


2. Características metrológicas

2.1 O diâmetro:
Sendo, devido ao mero facto da cunhagem manual e da época histórica, torna-se difícil tirar alguma conclusão segura, as medições realizadas apontam para a possibilidade destes Dinheiros terem um módulo ligeiramente maior que o dos restantes. Foram medidos os diâmetros a 20 Dinheiros com estrelas de Morabitino de onde se obteve uma média de 17.93 mm. Das medições efectuadas em 63 exemplares de outros Dinheiros de D. Afonso III foi obtida uma média de 17.28 mm.

2.2 O peso:
Mais uma vez, embora o número de Dinheiros seja manifestamente insuficiente, a pesagem dos 20 exemplares com estrelas de Morabitino indicou uma média de 0.74 grs, e dos outros 63 exemplares uma média de 0.72 grs, o que parece indicar que não exista diferença alguma.

2.3 A composição química:
No dia 5 de Agosto de 2017 foram analisadas as composições químicas de 12 Dinheiros com estrelas de Morabitino através do método de fluorescência de raios – x.
Os resultados revelaram uma percentagem média de 9.764% de prata, com o exemplar mais pobre a ter 6.585% e o exemplar mais rico a apresentar 16.6205%.
Como comparação, as análises efectuadas por Mário Gomes Marques e Francisco Magro, publicadas nos volumes 2 e 3 dos “Problems of Medieval Coinage in the Iberian Area” revelaram médias de prata, nos Dinheiros de D. Afonso III, de 8.9% e 8.13% respectivamente.
Embora o “Instrumentum Super Facto Monete” refira que as novas fornaças serão feitas “…segundo a mesma lei e a mesma quantidade de cobre e de prata, como desde o princípio se fez a minha moeda nova…”(1), os Dinheiros com estrelas de Morabitino apresentam concentrações de prata superiores em cerca de 1%. Terá D. Afonso III aproveitado a ocasião e sub-repticiamente acautelado uma quebra da moeda para as fornaças seguintes?

UMA HIPÓTESE

Os Dinheiros aqui analisados possuem características reminiscentes dos reinados anteriores: estrelas de Morabitino, a letra “X” feita com quatro punções; o “E” latino que será substituído pelo “E” uncial noutros Dinheiros de Afonso III (e de forma definitiva nos reinados posteriores) o que estaria de acordo com o pensamento de Ferraro Vaz na “Numária Medieval Portuguesa” quando atribui aos primeiros maior antiguidade(2).
Especulando um pouco, podemos admitir como válida a possibilidade de estes Dinheiros corresponderem à emissão realizada em Coimbra entre 13 de Novembro de 1260 e 4 de Abril de 1261?
Esta emissão foi interrompida enquanto decorriam as cortes de Coimbra, sendo depositados no Mosteiro de Santa Cruz, e só mais tarde, em 1270, é realizado novo lavramento.

NOTA FINAL:

Este pequeno trabalho não pretende, obviamente, ser a palavra final acerca deste assunto, não tenho os conhecimentos necessários e, além disso, o número de moedas analisadas é demasiado pequeno para poder chegar a alguma conclusão sólida.
Limitei-me a coligir alguns factos, espero que outros numismatas, certamente mais qualificados, possam aprofundar esta análise e acrescentar algo mais a um tema tão fascinante como é o estudo dos Dinheiros.
Entretanto, enquanto isso não acontece, apelo a todos os numismatas que dêem a conhecer os Dinheiros com estrelas de Morabitino que possuam, para que possamos aumentar a reduzidíssima base de dados. Apelo também a que apontem quaisquer incorrecções contidas neste pequeno trabalho.

(1) Aristides Pinheiro e Abílio Rita, Moeda de D. Afonso III – Alguns Documentos, pág. 32.
(2) J. Ferraro Vaz, Numária Medieval Portuguesa, Tomo I, pág. 65.

AGRDECIMENTO

Agradeço aos foristas Paulo Alves (Palves), Rui Monteiro (Rui AMF) e Iúri Fernandes (Numisiuris), toda a ajuda prestada e sem a qual este trabalho não teria sido possível.


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MensagemEnviado: sexta dez 15, 2017 7:38 am 
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Reinado D.Afonso III
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Registado: sexta abr 11, 2014 7:07 am
Mensagens: 1723
Excelente partilha e excelentes informações para irem complementando os nossos conhecimentos. estás de parabéns Praça e aguarda—se o próximo! ;) Os estudos sobre tipos específicos de dinheiros fazem muita falta! :thumbs:


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MensagemEnviado: sexta dez 15, 2017 9:36 am 
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Reinado D.Sancho I
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Registado: terça mar 28, 2017 8:00 pm
Mensagens: 2852
Agradeço esta valorosa partilha de informação e reconheço o mérito ao seu autor e a todos os que colaboraram. O nosso conhecimento jamais aumentava sem este tipo de iniciativas :thumbupleft:

_________________
:D FMMRei :D


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MensagemEnviado: sexta dez 15, 2017 9:44 am 
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Reinado D.Afonso III
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Registado: sexta jun 28, 2013 4:10 pm
Mensagens: 1781
Localização: Leiria (Distrito)
Excelente trabalho! :clap3:
Parabéns à "equipa" e obrigado, pela partilha. :thumbupleft:
:santa2; :xmas:

_________________
Cumprimentos,
Sílvio Silva


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MensagemEnviado: sexta dez 15, 2017 1:07 pm 
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Reinado D.Afonso Henriques

Registado: sexta nov 05, 2004 9:55 pm
Mensagens: 7914
Muito interessante e pertinente estudo.
Concordo com muitas das hipóteses levantadas, nomeadamente com a questão das reminiscências do reinado anterior. Todavia, é precisamente por isso que tenho tiro uma conclusão um pouco diferente.

Citar:
Os Dinheiros aqui analisados possuem características reminiscentes dos reinados anteriores: estrelas de Morabitino, a letra “X” feita com quatro punções; o “E” latino que será substituído pelo “E” uncial noutros Dinheiros de Afonso III (e de forma definitiva nos reinados posteriores) o que estaria de acordo com o pensamento de Ferraro Vaz na “Numária Medieval Portuguesa” quando atribui aos primeiros maior antiguidade(2).
Especulando um pouco, podemos admitir como válida a possibilidade de estes Dinheiros corresponderem à emissão realizada em Coimbra entre 13 de Novembro de 1260 e 4 de Abril de 1261?
Esta emissão foi interrompida enquanto decorriam as cortes de Coimbra, sendo depositados no Mosteiro de Santa Cruz, e só mais tarde, em 1270, é realizado novo lavramento.


Estando já dentro do novo sistema criado a 11 de Abril de 1261, o dos dinheiros novos, estes dinheiros, a meu ver, não poderão fazer parte da amoedação referida de Novembro de 1260 a 4 de Abril do ano seguinte. Essa amodação, que não conhecemos, teria que ter caracterísitcas metrológicas diferentes (não obrigatoriamente tipológicas). Seriam dinheiros do sistema velho e mais ricos, visto que o instrumentum foi redigido precisamente para retirar conteúdo de prata aos dinheiros.

Sugeria, por isso, uma explicação alternativa: estes dinheiros deverão estar já integrados no sistema pós 11 de Abril de 1261 dos dinheiros novos. Dadas as proximidades estilísticas com os dinheiros anteriores, deduz-se que deverão ter sido a primeira emissão de dinheiros novos, cunhados em Santa Cruz, pelos mesmos abridores que aí laboravam (o que nos ajuda a localizar também o local de cunhagem dos dinheiros e morabitinos de D. Sancho II) após 11 de Abril de 1261.

A partir de 1270, a Casa Moeda, como sabemos, transferiu-se para Lisboa, encerrando a de Coimbra definitivamente. Talvez os dinheiros novos de Afonso III, já sem estrelas de morabitino e com os SS em pé, poderão ser as emissões de 1270 e posteriores (aliás, muito próximos da maioria dos dinheiros de D. Dinis).

_________________
MCarvalho


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MensagemEnviado: sexta dez 15, 2017 3:56 pm 
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Reinado D.Afonso II
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Registado: segunda jan 11, 2010 11:02 am
Mensagens: 2293
Cada vez melhor. obrigado Praça!

_________________
Museu da Moeda: http://www.museumoeda.com


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MensagemEnviado: sábado dez 16, 2017 9:41 pm 
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Reinado D.João VI

Registado: sexta nov 10, 2006 8:18 pm
Mensagens: 414
Localização: VILA REAL DE SANTO ANTÓNIOMontreux/Suiça
Primoroso trabalho, e assim se aprende .Parabéns ao Praça e equipa que tornou possivel mais este trabalho.
J.Luis Lourenço

_________________
ajudar para ser ajudado


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