Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

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crislaine
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Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

Mensagempor crislaine » quinta out 10, 2013 1:01 pm

Ora viva pessoal!

Venho por este meio apresentar as minhas observações e consequentes conclusões sobre um trabalho inicialmente realizado pelo amigo José Valério (ao qual deixo o meu apreço e forte abraço), sobre o desaparecimento das moedas de D. Pedro I.

Gostava de poder partilhar convosco e de saber de certa forma as vossas opiniões.

Como já disse, foi um trabalho iniciado pelo Sr. José Valério, ao qual, da minha opinião, decidi não alterar o que já se tinha feito. Apenas serve este como um acrescento e "compêndio" do que poderá haver.

O presente trabalho foi desenvolvido com base na documentação referenciada na bibliografia. Gostaria desde já de deixar o meu apreço pelo Sr. José Valério que se disponibilizou na ajuda, quer dos textos quer de algumas fontes para desta maneira concluir este trabalho. Da mesma maneira, expresso que este trabalho foi realizado à luz de opiniões/discussões ao longo da minha “vida numismática” como um apaixonante pela moeda medieval. Por outro lado, não tendo os conhecimentos que deveria ter como historiador, ou até mesmo considerando os “grandes numismatas”, muitos poderão não estar corretos e daí suscitar opiniões contrárias. A partilha deste documento com toda a comunidade numismática destina-se a dar a conhecer factos de interesse e a contribuir para divulgação da numismática portuguesa, bem como estabelecer pontos de discussão sobre matérias pouco debatidas e tem como última finalidade suscitar a reflexão e participação de todos.


D. Pedro I (O Justiceiro)

O Sucessor de D. Afonso IV nasceu na cidade de Coimbra a 18 de Abril de 1320, casou em Fevereiro de 1336 com D. Constança Manuel, filha de D: João Manuel, duque de Penafiel e neta materna de Jaime II de Aragão. Falecendo esta princesa a 13 de Novembro de 1354, esposou segundo se diz, clandestinamente em Bragança, no 1º de Janeiro de 1354, D. Inês de Castro, filha de D. Pedro Fernandes de Castro, parenta e dama da sua primeira mulher, e que havia acompanhado em Portugal. Ao casamento seguiu-se o assassinato da gentil D. Inês e consequentemente a guerra entre o pai e o filho. Quando se aclamou rei em 28 de Maio de 1357, foi um dos seus primeiros atos reclamar os matadores refugiados em Castela e colhendo às mãos dois, pois o terceiro logrou escapar-se, cevou neles atroz vingança. Na vila de Cantanhede declarou solenemente perante toda a corte haver recebido em legítimo matrimónio a D. Inês de Castro e para reabilitar a sua memória, fez a coroação no seu cadáver em Coimbra a 25 de Abril de 1361, transladando com brilhante pompa do Mosteiro de Santa Clara de Coimbra para um dos sumptuosos mausoléus, previamente construído no Mosteiro de Alcobaça. Dotado de uma retidão inflexível, chegava algumas vezes à crueldade, mesmo apoiando o fraco contra o opressor, conservando a paz no interior do reino e com os estrangeiros desenvolveu o comércio, a agricultura e as artes. Era de carácter agradável e muito dado a folias; diz Fernão Lopes: «ser muito gago, grande caçador e depois que foi rei tragendo gram casa de caçadores moços de monte e daves e caaens…» crónica de D. Pedro I, nos inéditos da Academia Real de Ciências, tom IV, pág. 7
Faleceu em Extremoz a 18 de Janeiro de 1367, e jaz num mausoléu, ao lado de D. Inês de Castro na igreja do Mosteiro de Alcobaça.
D. Pedro I adotou por empresa uma estrela com a legenda: Monstrat iter.


Moedas desaparecidas - Dobras e Torneses de D. Pedro I


Oiro…… Dobras……………………………………………………………………………………. Desconhecido
Meias Dobras…………………………………………………………………………. Desconhecido
Prata…. Torneses…………………………………………………………………………………. Desconhecido
Meios Torneses……………………………………………………………………... Desconhecido
Bilhão… Dinheiro……………………………………………………………………………………… 1$500 réis


D. Pedro I reuniu cortes em Elvas a 23 de Maio de 1361.
Diz Fernão Lopes: «…ca o vassalo nom avia ante de sua sontia mais de seteenta e cinco livras, e elReil Dom Pedro lhe pos cento, que eram quinze dobras cruzadas, dobras mauriscas…». Por esta forma, poder-se-á entender que:

O marco de prata ligua ……….……….… 19 libras
Dobra maurisca ……………. 3 libras e 15 soldos
Escudo ………………………….. 3 libras e 17 soldos
Moutom …………………………. 3 libras e 19 soldos

Imagem

Dobra
Valor: 4 libras e 2 soldos ou 82 soldos
Metal: ouro – 24 quilates – 999,9 º/oo
Peso: 92 8/50 grãos - 4,59 g
Diâmetro: n/d

A/: + PETRVS:REX:PORTVGAL:ALGARB – Pedro, Rei de Portugal e do Algarve. Apresenta o rei, com barba e coroado, sentado no trono e empunhando, com a mão direita, uma espada erguida. No exergo, entre dois aneletes, a marca monetária L, da Casa da Moeda de Lisboa.

R/: + DOMINVS:MICHI:ADIVTOR:ET:EGO:DI: - : SPICIAM:INIMICOS.MEOS: - Deus ajuda-me e faz-me ter em pouco os meus inimigos – apresenta, no centro do campo, as cinco quinas e, no quadrante superior esquerdo, um sinal oculto.

Meia dobra ou dobra pequena
Valor: 2 libras e 1 soldo ou 41 soldos
Metal: ouro – 24 quilates – 999,9 º/oo
Peso: 2,295 g
Diâmetro: n/d

A/: idêntico à dobra
R/: idêntico à dobra.

Tornês
Valor: 7 soldos
Metal: prata 24 quilates 999,9 º/oo
Peso: 3,53 g
Diâmetro: n/d

A/: apresenta a efígie do rei com barbas grandes e coroado
R/: apresenta as quinas

Meio tornês
Valor: 3 ½ soldos
Metal: prata 24 quilates 999,9 º/oo
Peso: 1,76 g
Diâmetro: n/d

A/: idêntico ao tornês
R/: idêntico ao tornês

Segundo o cronista Fernão Lopes, a numária de D. Pedro I (1357-1367) foi mais rica do que aquilo que chegou até nós. De acordo com o conhecimento atual, apenas dinheiros foram cunhados neste reinado, devendo ser da mesma liga e valor dos de seu pai, pois segundo o mesmo cronista, afirma que este rei não alterou o preço da moeda. Algumas vezes o “P” confunde-se com o “D”, tendo a volta em baixo incompleta, mas outros encontram-se muito distintos, não podendo neste caso deixarem de ser atribuídos a D. Pedro I, não havendo rei em Portugal com este nome que cunhasse moeda de bilhão.
O cronista assim deixou descritas as moedas deste reinado, diferindo pouco das usadas por D. Pedro I de Castela, com quem o de Portugal esteve intimamente aliado. Nunca vimos as moedas de ouro e de prata do filho de D. Afonso IV, lavradas segundo o testemunho de Fernão Lopes em pequena quantidade, e não consta que exista hoje algum exemplar nas coleções. Manuel Severim de Faria (diz Teixeira de Aragão), possui uma dobra, mas infelizmente não a desenhou nem descreveu com as outras moedas portuguesas.
A propósito desta moeda, afirma ainda Ferraro Vaz (1960), que no dicionário “nenhuma referência aí se faz ao seu feliz possuidor nem se fornecem outros pormenores, o que é de estranhar tratando-se de numisma de tão alta categoria, quando é certo que outros de somenos importância são exuberantemente determinados.”

Por outro lado, Aragão (1875, p.175) diz, em nota de rodapé, que “No Gabinete de numismática de Conpenhague existe um ensaio em cobre, de cuja autenticidade muito duvidamos; difere do tipo e legendas da dobra citada por Fernão Lopes e das de D. Pedro I de Castela. Provavelmente alguma contrafação do mesmo tempo e fábrica das que deixamos mencionadas nos reinados de D. Afonso III e D. Dinis”
Contudo, conforme o relato do cronista, D. Pedro I mandou cunhar outros espécimes numismáticos: as dobras e meias dobras de ouro e os torneses e os meios torneses de prata. Nenhuma destas moedas chegou até aos nossos dias e não podemos, portanto, usufruir da sua riqueza numismática.
Entretanto, como diz o nosso cronista, 50 dobras portuguesas em marco, sendo como as castelhanas de ouro de 23 3/4 quilates passavam 92 8/50 grãos e tinham o valor de 4 libras e 2 soldos ou 82 soldos. Confrontando este preço com o dado à dobra maurisca de 3 libras e 15 soldos, ou 75 soldos, deviam entrar proporcionalmente destas 54 em marco, com o peso de 85 8/50 grãos.
Os reais de prata de Castela eram de 11 dinheiros e 4 grãos, fazendo 70 num marco, e pesando cada peça 65 58/70 grãos. Fernão Lopes dá aos torneses de Portugal a mesma liga e peso, mas diz entrarem 65 em marco, devendo assim pesar cada um 70 58/65 grãos, o que parece ser engano no número de peças que diz entrarem no marco, pois em 15 reaes de prata de D. Pedro I de Castela, que verificámos, achamos em todos para menos de 65 grãos, e Mr. Heïss também não encontrou nenhum exemplar com peso superior a 3483 centigramas. Descripc De las mon. Hispano-crist., tom I, pág 60 a 62.


Relativo aos reaes deste monarca, escreveu o ensaiador D. Manuel Lamas ao padre Saer: «Entre la moneda que me há fraqueado D. Pedro de Sepulveda, hay um real de plata que por el anverso representa una P coronada, y la inscripcion en dos vueltas de circulo que dice: DOMINVS.MICHI.ADVITOR.ET.EGO.DIS – PICIAM.INIMICOS.MEOS; y por el reverso um castillo y leones á cuarteles, una B por señal y la legenda; PETRVS.REX.CASTELLE.E.LEGIONIS; pesa cinco tomines y ocho granos (3 grammas com 395 milligrammas ); tiene de ley once dineros y cuatro granos»

Dos quatro exemplares apenas se conhece a ilustração da dobra de D. Pedro I, acima reproduzida, que vem desenhada na Numismática de Toro (Dicionário de Numismática Portuguesa, por José do Amaral Toro e Tito de Noronha, Porto, 1872-1884 – publicação em 10 cadernetas). Não se conhece nenhuma imagem anterior a esta data nem qual a sua origem.

Imagem

A/: + PETRVS DEI GRA REX . PORT . ET . ALG – Pedro, pela graça de Deus, Rei de Portugal e do Algarve – Figura do Rei, coroado, sentado no trono, com a espada na mão direita; a mão esquerda sobre a coxa, e do mesmo lado o escudo das quinas.
R/: + PER CRVCEM . TVAM . SAIVA . NOSXRE . REDEMIT
– PER CRVCEM SALVA NOS XPC REDEMPTOR – Pela tua Cruz, salva-nos Oh Christo redentor. – Cruz floreada dentro de um circulo ogive, orlado de pérolas.

Na sua crónica de D. Pedro I, Fernão Lopes (1735) relatou-nos o seguinte:

Este Rei Dom Pedro não mudou moeda por cobiça de temporal ganho, mas lavrou-se em seu tempo mui nobre moeda de ouro e prata sem outra mistura: a saber. Dobras de bom ouro fino, de tamanho peso como as dobras cruzadas, que faziam em Sevilha, que chamavam de Dona Branca; e estas dobras que el Rei Dom Pedro mandava lavrar, cinquenta delas faziam um marco; e doutras que lavravam mais pequenas, levava o marco cento, e de uma parte tinham quinas e da outra figura de homem com barbas nas faces e coroa na cabeça, sentado numa cadeira, com uma espada na mão direita e tinha letras em redor de latim que em linguagem diziam: Pedro Rei de Portugal e do Algarve; e da outra parte: Deus ajudai-me a fazei-me excelente vencedor sobre meus inimigos. E a maior dobra destas valia quatro libras e dois soldos, e a mais pequena, quarenta e um soldos.

E lavravam outra moeda de prata que chamavam torneses, que sessenta e cinco faziam um marco de liga e peso dos reais del-Rei Dom Pedro de Castela; e outro tornes faziam mais pequeno de que o marco levava cento e trinta, e de uma parte tinha as quinas, e da outra uma cabeça de homem com barbas grandes e coroa nela, e as letras de ambas as partes, eram tais como as das dobras, e valia o tornes sete soldos, e o pequeno três soldos e meio, e chamavam a estas moedas, dobra e meia dobra, e tornes e meio tornes.

E a outra moeda miúda eram os dinheiros alfonsins da liga, e valor, que fizera el-rei seu pai, e com estas moedas era o Reino rico, e abastado, e posto em grande abundância, e os Reinos faziam grande abundância, e tesouros do que lhes sobejava dos gastos de suas rendas; e para os fazer, e acrescentar em eles tinha esta maneira.


“ Exame atento sobre as moedas descritas no aspeto numismático”

Segundo o cronista Fernão Lopes que teve a seu cargo a crónica do reinado deste rei, a qual descreveu, eram decorridos uns cinquenta anos sobre o seu falecimento, houve a amoedação de ouro – como sejam as dobras e meias dobras – e de prata – como sejam torneses e meios torneses; faz ainda alusões claras, dando a ideia de que as conheceu, o que nos leva a acreditar na sua existência, em virtude de, quanto às de ouro, ainda houver outras alusões documentais. Também diversos autores apontam e descrevem esses exemplares, no entanto não há conhecimento de qualquer dessas moedas atualmente existirem.

Na descrição das dobras de D. Pedro I feita por Fernão Lopes, o cronista refere que nas mesmas se distinguiam as quinas numa das faces e na outra, uma figura de homem com a coroa na cabeça, assentando numa cadeira, com uma espada na mão direita, e havia letras em redor em latim que em linguagem diziam: «Pedro Rei de Portugal e do Algarve» e da outra parte: «Deus ajuda-me a fazer excelente vencedor sobre meus inimigos». «A maior dobra destas tinha o valor de quatro libras e dois soldos e a mais pequena, quarente e um soldos. Lavram outra moeda de prata a que davam o nome de tornês, cujo o numero de sessenta e cinco perfazia um marco, de liga e peso dos reais do Rei D. Pedro de Castela, e outro tornês era mais pequeno do que o marco, levava centro e trinta, e de um lado apresentava quinas e do outro a cabeça de um homem com coroa, sendo as letras de ambos os lados tais como as dobras, valendo o tornês grande sete soldos e o pequeno três soldos e meio, chamando-se a estas moedas dobra e mea dora e tornês e meo tornês. A outra moeda miúda eram dinheiros alfonsys, de liga e valor que o rei D. Afonso, seu pai, fizera»

Jamais foram vistas essas moedas de ouro e prata cunhadas por D. Pedro I, consoante as provas de Fernão Lopes, em quantidade diminuta, não havendo testemunho de que haja atualmente, qualquer exemplar nas coleções existentes.

D. Pedro I (1357-1367) foi o monarca português quem primeiro mandou cunhar as dobras. Não obstante, estes numismas não são hoje do nosso conhecimento. Estes exemplares ficaram conhecidos por dobras e meias dobras portuguesas, para se distinguirem das variadas dobras estrangeiras que circularam em Portugal durante toda a primeira dinastia. (Folgosa, 1960)

De acordo com Marques (1982), as dobras e os torneses, e respectivos múltiplos terão existido de facto tendo sido “moedas pouco abundantes, mas de excelente qualidade”. Para o autor “seria estranho que o cronista (Fernão Lopes) se permitisse o devaneio de entrar em pormenores tipológicos e metrológicos sobre as espécies em causa sem estar de posse de elementos seguros a elas referentes …”. Afirma ainda que ”é legítimo pensar que as correspondentes emissões foram, de facto, muito escassas e que, por um acaso, improvável mas não impossível, nenhum exemplar chegou ao conhecimento dos numismatas modernos”.

Adianta ainda em nota de rodapé que “Os pormenores sobre a metrologia e os cursos legais das moedas de ouro e de prata de D. Pedro I são referidos por Fernão Lopes não apenas para as cabeças de série mas também para as fracções. Essa preocupação com o detalhe só é compreensível desde que se admita que o cronista teve acesso a fontes em que o assunto era versado com minúcia. Há, por conseguinte, todo um conjunto de dados circunstanciais que apontam para a existência real destas moedas hoje desconhecidas”.

Outra prova da existência destas moedas é o relato de Faria (1740, p. 171), “50 delas pesavam um marco e tanto pesam as dobras daquele tempo; que ainda hoje se conservam, de que eu tenho uma”. Lamentavelmente, este autor, não descreveu nem desenhou a moeda como fez com outras moedas portuguesas. Infelizmente a sua colecção teria desaparecido mais tarde, com o terramoto de 1755. (Vaz, 1960)

Contudo, Marques (1982), não concorda com esta interpretação e afirma que “Alguns autores referem que Severim de Faria teria afirmado possuir uma dobra de D. Pedro daí concluindo que pelo menos um exemplar dessa moeda ainda existiria no século XVII. No entanto, tal ideia resulta de uma interpretação abusiva de uma passagem das Notícias de Portugal em que o chantre de Évora diz textualmente: “…porém, se fizermos a conta conforme a valia do marco de ouro, que são trinta mil reis, tinha cada uma destas dobras seiscentos reis de peso, pois cinquenta delas pesavam um marco, e tanto pesam as dobras daquele tempo, que ainda hoje se conservam, de que eu tenho uma”. Assim, Severim Faria não disse possuir uma dobra de D. Pedro, mas sim uma dobra daquele tempo, das que ainda se conservam e que podia perfeitamente ser uma dobra coeva do referido monarca mas lavrada em Castela.

Não partilhamos das conclusões de Marques. A nossa interpretação é a de que Faria (1740) ao descrever a Dobra de D. Pedro I transmite-nos, que aquelas moedas pelo seu elevado peso e valor em ouro, (“tinha cada uma destas Dobras 600 réis de peso … e tanto pesam as Dobras daquele tempo, que ainda hoje eu tenho uma”) resistiram ao passar dos tempos e ele era possuidor de uma daquelas dobras e não de uma qualquer outra dobra espanhola contemporânea, conforme afirma Marques. Aliás, é uma constante ao longo das Notícias de Portugal o autor afirmar possuir os mais variados exemplares de moedas de que ele fala e descreve pormenorizadamente. Não nos restam dúvidas de que Severino de Faria era detentor de uma dobra de D. Pedro I.

Torneses

Existe pouca informação sobre os torneses. Ao que parece, este nome foi dado por D. Pedro I a estas moedas à semelhança de uma moeda francesa, que então corria por toda a Europa, e se lavrava em Tours, Cidade de França, e por isso se chamavam soldos Turonenses. (Faria, 1740)

Segundo Fernão Lopes “… lavravam outra moeda de prata que chamavam torneses, que sessenta e cinco faziam um marco de liga e peso dos reais del-Rei Dom Pedro de Castela; e outro tornes faziam mais pequeno de que o marco levava cento e trinta, e de uma parte tinha as quinas, e da outra uma cabeça de homem com barbas grandes e coroa nela, e as letras de ambas as partes, eram tais como as das dobras, e valia o tornes sete soldos, e o pequeno três soldos e meio, e chamavam a estas moedas, dobra e meia dobra, e tornes e meio tornes.

Aragão (1875), não concorda com os pesos atribuídos por Fernão Lopes a estas moedas e afirma que “Os reaes de prata de Castella eram de 11 dinheiros e 4 grãos, fazendo 70 um marco, e pesando cada peça 65 58/70 grãos. Fernão Lopes dá aos tornezes de Portugal a mesma liga e peso, mas diz entrarem 65 em marco, devendo assim pesar cada um 70 58/65 grãos, o que parece ser engano no número de peças que diz entrarem no marco, pois em 15 reaes de prata de D. Pedro I de Castella, que verificámos, achámos em todos para menos de 65 grãos, e mr. Heïss também não encontrou exemplar algum com o peso superior a 3.483 centigramas”.

O desaparecimento das dobras

Refere Marques (1982) que as emissões destas moedas teriam sido “pouco abundantes, mas de excelente qualidade” e que ”é legítimo pensar que as correspondentes emissões foram, de facto, muito escassas e que, por um acaso, improvável mas não impossível, nenhum exemplar chegou ao conhecimento dos numismatas modernos”. Também Fernão Lopes diz que D. Pedro I fez moeda “muito boa, de ouro e de prata, como dissemos; mas foi em pouca quantidade."

Apesar do seu número reduzido, certamente terão ficado muitas destas moedas no tesouro nacional porque o “… rei D. Fernando começou a reinar o mais rico rei que em Portugal foi até ao seu tempo, cá ele achou grandes tesouros que seu pai e avós guardaram, em guisa que somente na torre do Haver, do castelo de Lisboa, foram achadas oitocentas mil peças de ouro e quatrocentos mil marcos de prata, afora moedas e outras coisas de grande valor que aí estavam, e mais todo o outro haver, em grande quantidade, que em certos lugares pelo reino era posto.

Mas, com a “… grande despesa da guerra começada assim por mar como por terra, tudo se gastava que não ficava nenhuma coisa para depósito, e mais todo o ouro e prata que ele achara entesourado; assim que ele danou muito sua terra com as mudanças das moedas e perdeu quanto ganhou nelas, e tornaram-se os lugares a Castela cujos eram, e ele ficou sem nenhuma honra."

"Dois grandes males recebeu o reino por esta guerra que el-rei D. Fernando com el-rei D. Henrique começou, de que os povos depois tiveram grande sentido: o primeiro, gastamento, em grande quantidade, de ouro e prata que antigamente pelos reis fora entesourado, do qual por azo dela, foi a Aragão levada muito grande soma de ouro, como já tendes ouvido; o segundo, isso mesmo foi gasto de muita multidão de prata, por a mudança das moedas que el-rei fez, por satisfazer ás grandes despesas dos soldos e pagas das coisas necessárias à guerra, por cujo azo montaram as coisas depois de tamanhos desarrazoados preços que conveio a el-rei e foi forçado de por sobre todas almotaçaria, e mudar o valor que à primeira puzera em tais moedas." Lopes (1895)

Por tudo isto, é perfeitamente natural que poucos exemplares tenham escapado à fúria despesista de D. Fernando I. Mas, mesmos esses que poderão ter sobrevivido, quem sabe, talvez nas mãos de particulares, portugueses ou estrangeiros, também não lograram chegar aos nossos dias.

“Das Legendas e consequentes conclusões”

Em Castela a legenda DOMINVS MICHI ADVITOR ET EGO DISPICIAM INIMICO MEOS que se traduzirá por, Senhor ajuda-me e faz-me excelente vencedor sobre os meus inimigos, usada pelos soberanos castelhanos Pedro I, Henrique II, D. Beatriz, Henrique III, João II e pelo príncipe D. Afonso, pretendente e usurpador, irmão de Henrique IV, foi igualmente usada pelo nosso rei D. Fernando I.
Realmente este príncipe português usou esta legenda completa ou incompleta nas suas moedas de bilhão: torneses, meios torneses, barbudas e meias barbudas, embora pareçam não ter sido o primeiro entre nós a fazer tal uso. O cronista Fernão Lopes, dá-nos umas informações, segundo as quais se pode inferir que o pai de D. Fernando I usou a mesma legenda nas meias dobras de ouro. Ouçamos o patriarca da historiografia nacional: (mais uma vez) “Este Rei Dom Pedro não mudou moeda por cobiça de temporal ganho, mas lavrou-se em seu tempo mui nobre moeda de ouro e prata sem outra mistura: a saber. Dobras de bom ouro fino, de tamanho peso como as dobras cruzadas, que faziam em Sevilha, que chamavam de Dona Branca; e estas dobras que el Rei Dom Pedro mandava lavrar, cinquenta delas faziam um marco; e doutras que lavravam mais pequenas, levava o marco cento, e de uma parte tinham quinas e da outra figura de homem com barbas nas faces e coroa na cabeça, sentado numa cadeira, com uma espada na mão direita e tinha letras em redor de latim que em linguagem diziam: Pedro Rei de Portugal e do Algarve; e da outra parte: Deus ajudai-me a fazei-me excelente vencedor sobre meus inimigos.
Depreende-se daqui que o rei D. Pedro I mandou cunhar meias dobras de ouro, as tais moedas das quais as “mais pequenas, levava o marco cento” eu tinham também no reverso aquela legenda latina.
Como não são conhecidas as espécies de ouro deste monarca, esta legenda que tantas vezes foi usada pelos soberanos castelhanos, só praticamente se pode admitir como usada em Portugal nas moedas de bilhão de D. Fernando I. Quer tenha sido usada apenas por este rei, a prioridade pertence aos castelhanos, e neste caso fomos nós os imitadores.
Quais os argumentos em que me baseio para afirmar que foram os castelhanos os primeiros a iniciarem tal uso? Será que também se pode confirmar a inexistência deste tipo de moedas em D. Pedro I?
1º - O primeiro soberano castelhano que usou nas suas moedas foi Pedro I, que reinou de 1350 a 1368, enquanto D. Pedro o Crú governou de 1357 a 1367 e D. Fernando I, de 1367 a 1383. Este argumento de carácter cronológico pode, no entanto, não ter razão de ser, porque podia-se ter dado o caso daquele soberano português ter feito cunhagens com tal legenda antes do seu homónimo castelhano, embora nada se saiba sobre as datas das cunhagens do rei português e Mr. Heïss (Monedas hispano-christianas) seja igualmente omisso no ano ou anos das cunhagens do castelhano;
2º - Porém, as desconhecidas moedas de ouro de D. Pedro I parecem ter sido batidas à semelhança das dobras castelhanas já existentes. Diz Fernão Lopes, “mas lavrou-se em seu tempo mui nobre moeda de ouro e prata sem outra mistura: a saber. Dobras de bom ouro fino, de tamanho peso como as dobras cruzadas, que faziam em Sevilha, que chamavam de Dona Branca “.
Vê-se que a dobra portuguesa era uma imitação da Dobra cruzada ou de Dona Branca castelhana, como de resto no tipo, a meia dobra, segundo o mesmo Fernão Lopes, era imitada da meia dobra castelhana. Porém, se no reverso das moedas nacionais havia citado a legenda latina, que não se vê na Dobra nem na meia dobra castelhanas, (sendo iguais as legendas do anverso e do reverso: PETRVS.DEI.GRACIA.,etc., em ambas), somos levados a crer que a imitação foi farejada no anverso das peças de Dez Dobras de ouro do rei castelhano, já então em circulação.
3º - Quando se cunharam os pretensos torneses de prata filho de Afonso IV, já existiam os Reais de prata do rei castelhano. Ouçamos ainda, sobre este caso, o nosso cronista: “E lavravam outra moeda de prata que chamavam torneses, que sessenta e cinco (lxxb) faziam um marco de liga e peso dos reais del-Rei Dom Pedro de Castela”.
D. Pedro I de Castela (1350-1368) usou a legenda nas peças de Dez Dobras de ouro e nos Reais e Meios Reais de prata; Henrique II (1368-1379) nos Reais e Meios Reais de prata; D. Beatriz (1383-1379) nos Torneses de prata: Henrrique III (1390-1406) Reais e Meios Reais de prata; João II (1406-1454) nos Reais e Meios Reais de prata e D. Afonso (1465-1468), irmão de Henrique IV. Nas Dobras a cavalo de ouro e nos Meios Reais de prata.
A legenda DOMINVS.MICHI.ADIVTOR foi também usada posteriormente nos Países Baixos, no Senhorio de Utreecht, Senhorio de Overyssel, Ducado de Brabante, Ducado de Luxemburgo, Ducado de Gueldres, Condado da Flandres, Senhorio de Tournai, Condado de Artois, Condado de Hainaut, Condado de Holanda, Condado da Zelândia e Condado de Namur, no tempo de Filipe II (1555-1598), em variadíssimas moedas de ouro, prata, bilhão e cobre: Escudos, Reais, etc. de ouro; Filipes, frações de Filipe, etc. de prata; Patarts, Soldos, etc. de bilhão e Liards de cobre.



Bibliografia

ARAGÃO, Augusto Carlos Teixeira de. Descrição Geral e Histórica das Moedas Cunhadas em Nome dos Reis, Regentes e Governadores de Portugal, Tomo. I. Lisboa. Imprensa Nacional, 1875

FARIA, Manoel Severim de, Notícias de Portugal, Discurso IV, § 25, Lisboa Occidental, Oficina de António Isidoro da Fonseca, 1740

FOLGOSA, J. M., Dicionário de Numismática, Livraria Fernando Machado, Porto, 1960

GOMES, Alberto, Moedas Portuguesas e do Território Português antes da Fundação da Nacionalidade, Associação Numismática de Portugal, 3.ª Edição, Lisboa, 2001

LOPES, Fernão, Crónica del-rei D. Pedro I, Lisboa Occidental, Oficina de Manoel Fernandes Costa, 1735 – Biblioteca Nacional em http://purl.pt/422

LOPES, Fernão, Crónica de el-rei D. Pedro I, Escriptorio, Lisboa, 1895 – Projecto Gutenberg em http://www.gutenberg.org/ebooks/16633

LOPES, Fernão, Chrónica de el-rei D. Fernando, Escriptorio, Lisboa, 1895 – Biblioteca Nacional em http://purl.pt/419

MARQUES, Mário Gomes. Numária Medieval Portuguesa, p.257, Nvmisma 177-179, 1982, Julho-Dezembro

VAZ, J. Ferraro, Moedas Medievais de Portugal – D. Pedro I, Nvmisma 147-149

VAZ, J. Ferraro, Nvmária Medieval Portuguesa, Tomo I, pp. 83-84, Lisboa, 1960

Imagem das moedas de Toro e de Aragão: VAZ, J. Ferraro, Moedas Medievais de Portugal – D. Pedro I, Nvmisma 147-149

in "http://moedas-comemorativas.blogspot.com/2010/12/moedas-desaparecidas-dobras-e-torneses.html"

Abraço a todos

:beer: :beer: :beer:
" A modéstia é a humildade de um hipócrita que pede perdão por seus méritos aos que não têm nenhum. "
- Arthur Schopenhauer

" Só os cegos enxergam o som do valor das moedas. "
- M.M.Soriano

Cumprimentos

Crix & Helder

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Paul Gerritsen Plaggert
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Re: Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro

Mensagempor Paul Gerritsen Plaggert » sexta out 11, 2013 12:02 pm

Já para os inamovíveis! :clap3: :clap3: :clap3:
PECVNiA NON OLET

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fernanrei
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Re: Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

Mensagempor fernanrei » domingo jul 16, 2017 9:30 am

:hammer: Um tópico muito importante que a todos favorece, já para a ala dos inamovíveis :hammer:
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MCarvalho
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Re: Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

Mensagempor MCarvalho » domingo jul 16, 2017 4:34 pm

Julgo que o copy-paste e a auto-promoção não devem ser incentivadas no Fórum.
O texto integral é do José Valério, um estudioso e amigo que merece os créditos todos.

Para memória e para reconhecimento, bem como para que se faça justiça, deixo de novo o link para onde deveria ter estado sempre:

http://moedas-comemorativas.blogspot.pt ... s.html?m=1
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fernanrei
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Re: Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

Mensagempor fernanrei » domingo jul 16, 2017 8:17 pm

O tópico ainda está activo e o moderador respectivo não actuou no sentido de remover qualquer coisa que esteja errada. Assim sendo não consigo encontrar motivos para que alguém faça referência a quem lê o que é publico e comente o que é para ser comentado. Com muito respeito e consideração por todos os ilustres quero apenas acrescentar que se o tópico tem alguma incompatibilidade com algo ou com alguém, façam o favor de bloquear ou remover e não critiquem quem apenas lê e comenta o que está disponível para esse facto.
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Re: Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

Mensagempor MCarvalho » domingo jul 16, 2017 9:29 pm

Peço desculpa se não me fiz entender. Nada há a apontar a quem lê, partilha ou comenta. É uma forma saudável e enriquecedora de participar.

O meu comentário foi no sentido de deixar claro quem é o autor deste estudo, coisa que a pessoa que o partilhou aqui não o fez. Aliás, insinua que foi ele que concluiu o que quer que seja. Como já não é a primeira vez que há estas "autorias" de trabalhos de outros, quis que tudo ficasse claro para os leitores.
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luisc
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Re: Conclusão do estudo das moedas desconhecidas - D. Pedro I

Mensagempor luisc » segunda jul 17, 2017 9:08 am

Boa leitura....

Os argumentos apresentados para nenhuma ter chegado aos nossos dias são bastante convincentes, mas enquanto não aparecer uma, a duvida creio irá sempre persistir.

O estudo está muito bom


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