O VALOR DO DINHEIRO.

Moedas cunhadas desde D.Afonso I até D.Pedro P.Regente

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doliveirarod
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O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor doliveirarod » sábado jul 12, 2008 12:41 am

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Tostão de prata de D. Manuel. (100 réis)


Frequentes vezes surgem perguntas sobre o que as velhas moedas que temos nas coleções poderiam comprar, qual o valor de mercado que tinham, qual seria seu poder de compra, etc...
É uma curiosidade geral.

Aqui fica um texto bastante esclarecedor a respeito do valor do dinheiro português à época dos grandes descobrimentos.

Muito interessante também é descobrir que o Brasil, com a criação do real em 1994, entrou num verdadeiro "tunel do tempo monetário", pois o valor da nossa moedinha de real bimetálica atual está inacreditavelmente equiparada ao velho real português do séc. XVI!

Os valores referenciais são extremamente semelhantes! E com base nesses referenciais temos uma idéia praticamente perfeita de quanto custava uma velha caravela ou o valor de um litro de vinho, em dinheiro de hoje.

Vejamos por exemplo, o menor salário pago em Portugal mensalmente à referida época: 360 reais por mês. No Brasil na data em que escrevo este texto, o salário mínimo está fixado em 415 reais brasileiros, mas aumentou muito recentemente, até meados do ano passado estava em R$ 380,00, e em 2006 estava em R$ 350,00, valores incrivelmente próximos do "salário mínimo" pago em real português no tempo de D. Manuel!

Não só! Os valores recebidos pelas autoridades e o preço das coisas abaixo relacionadas parecem até ter sido extraídas de anúncios classificados, mercados ou dados de folhas de pagamento de empresas e governo do Brasil nos anos de 2006/2007/2008!

* Referências: Um dólar está hoje cerca de R$ 1,80 (arredondando) e um euro cerca de R$ 2,60 (arredondando). Daí ser facílima a conversão para descobrir os preços portugueses do séc. XVI.

Vamos a isso, abaixo seguem os preços praticados no Portugal Manuelino e no Brasil colônia de então, tudo no velho real português:

-Menor soldo geralmente pago em Portugal: 360 reais mês. (No Brasil em 2006 era 350 reais)
-Soldo médio de um pedreiro: 600 reais mês. (Um bom "peão de obra" no Brasil de hoje ganha isso)
-Soldo médio de um marinheiro: 900 reais mês. (Compatível com o soldo de um marinheiro um pouco mais graduado no Brasil)
-Rendimentos de um escrivão: 40 mil reais por ano (compatível com o que ganha atualmente um funcionário das justiças estaduais)
-Rendimentos de um corregedor de justiça: 170 mil reais por ano (mais ou menos salário de um juiz de direito no Brasil atualmente)
-Rendimentos do Governador Geral Tomé de Souza: 400 mil reais por ano. (compatível com salários de governadores dos Estados Brasileiros hoje, que têm vários "auxílios e gratificações e verbas de gabinete")
-Rendimentos do Provedor Mor Cardoso Barros: 200 mil reais por ano
-Soldo de "mestre de pedraria": 72 mil reais por ano ( O salário de um engenheiro de uma boa empresa de construção civil hoje)
-Uma dúzia de ovos em Portugal: 7 reais (No Brasil hoje 4/5, mas naquela época não havia produção em larga escala como hoje)
-1 litro de vinho em Portugal: 13 reais (preço de um vinho vagabundo hoje no Brasil)
-1 quilo de farinha de mandioca no Brasil Colônia: 8 reais (cerca de 3 reais no Brasil de hoje, mas também não havia produção industrial naquela época)
-1 Kg de carne no Brasil Colônia: 20 reais (No Brasil cerca de 13/15 reais hoje, mas na época não havia, evidentemente, a produção industrial de hoje)
- Uma enxada no Brasil Colônia: 150 reais
-Uma boa espada no Brasil Colônia: 450 reais
-Preço de uma das melhores casas do Brasil Colônia em Salvador: 80 mil reais ( Pode-se comprar uma casa "razoável" em Salvador com esse valor hoje)
-Terreno de 22 metros de frente em Salvador: 13 mil reais (preço bem compatível com o atual, dependendo da localização do terreno)
-Uma nau em Portugal 2,5 mil cruzados (ou um milhão de reais)

-Custo aproximado do estabelecimento do Governo-Geral e da Construção da cidade de Salvador: Um milhão de cruzados (400 milhões de reais)
-Total dos recursos do Tesouro Régio em Portugal de 1547: 3 milhões e duzentos mil cruzados.
-Total da Dívida Externa portuguesa na mesma data: 3.881.720 cruzados


Como sabemos, circulavam em Portugal no séc. XVI os cruzados de ouro (3,50 gramas), equivalentes a 4 tostões de prata, e os reais de cobre, dinheiro da população no dia-à-dia, ou "dinheiro de contado", como era chamado.

*Os dados de preços foram extraidos do livro "A Coroa, A Cruz e a Espada" - Lei, ordem e corrupção no Brasil Colonial, do historiador e jornalista brasileiro Eduardo Bueno.
http://www.megaleiloes.com/leiloes.php? ... liveirarod ML - http://lista.mercadolivre.com.br/_CustId_14426169
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jcmalheiro
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Re: O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor jcmalheiro » sábado jul 12, 2008 12:59 am

Caro, Fabiano

São muito interessantes as equivalências do real português, ficamos com uma ideia do “custo de vida” na época de D. Manuel I.



Malheiro

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Antonio Correia
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Mensagempor Antonio Correia » sábado jul 12, 2008 1:20 am

Muito bom Fabiano, recupero aqui 2 textos sobre o assunto, deixados antes pelo Mário carvalho e pelo José Matos

"Cada moeda e cada época são casos específicos, mas a título de exemplo, no reinado de D. José, um cruzado pagava 1 gr. de ouro e ainda tinha troco, daria para mais de 3 litros de azeite.
(valores de Pedro Vasconcelos, em "O Real Valor do Dinheiro".
Em termos de salário, seria equivalente a 4 ou 5 dias de trabalho de um pedreiro.
Um copo de barro ou uma tigela poderiam ser comprados (numa feira, por volta de 1770) por 3 réis.

No tempo de D. Sebastião, o tostão de prata pagava mais de 5 litros de vinho, se recuarmos ao início do séc. XVI, os construtores dos Jerónimos menos qualificados (pedreiros simples)precisavam de 10 dias de trabalho para ganhar o tostãozito (100 reais), deduzo que os cantoneiros entalhadores ganhassem bem mais, mas de momento não tenho valores.

O Aquilo Ribeiro diz-nos que os pedreiros que levantaram a Casa de Romarigães, por volta de 1630, ganhavam entre 30 a 45 réis por dia."

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"Como curiosidade anoto a seguir alguns preços da época:
Segundo o foral do Porto, em 1123, por uma junta de bois bons se pagava 10 morabitinos (muçulmanos); Segundo as posturas de Coimbra, em 1145, uma galinha custava 3 dinheiros, um pato 6 dinheiros, 1 kg de carne de vaca à volta de 1 dinheiro, e um metro de tecido de boa qualidade cerca de 2,9 dinheiros; em Évora, em 1166, um carneiro comprava-se por 1,5 dinheiros e um alqueire de trigo 12 dinheiros.(Armando de Castro, Hist. de Port. - Alfa) "
Antonio Correia.

AJCS
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Re: O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor AJCS » sábado jul 12, 2008 5:31 am

:claps :claps :claps

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vma
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Mensagempor vma » quarta jul 23, 2008 5:29 pm

Mais uma achega para tão interessante assunto

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Vitor Almeida

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jcmalheiro
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Re: O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor jcmalheiro » quarta jul 23, 2008 8:01 pm

Caros, Vitor Almeida

Deve ser um livro muito interessante.


Saudações,
Malheiro

palas
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Mensagempor palas » sábado jul 26, 2008 12:48 pm

era um livro que adoreria ter! 8)

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AOLIVEIRA
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Re: O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor AOLIVEIRA » sexta out 03, 2008 2:17 pm

Dou os meus parabéns a todos. É isto que me fascina na numismática:
- A beleza das moedas (o que é relativo a cada pessoa).
- O seu conteúdo histórico.
Sempre que olho para uma moeda antiga tento-me lembrar da época, do reinado e o que poderia comprar na sua altura.
Comprei um cruzado que apareceu numa casa antiga, na minha terra, que era de 1807. Não é raro, até é bem banal. Mas a sua história relembra-me as invasões napoliónicas que passaram na minha terra vindas de Chaves e que alguém escondeu as moedas para não serem pilhadas dentro de um buraco na parede. Será que essa pessoa morreu durante essa guerra?...
Não é o valor que me atrai nas moedas como negócio mas sim essas duas referências.
:bier:

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Sílvio
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Re: O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor Sílvio » quinta dez 11, 2008 11:10 pm

Parabéns pela matéria. Por coincidência estou lendo a obra 1808, de Laurentino Gomes, que trata da vinda da família real para o Brasil.

Considerando suas preciosas informações será mais divertido ler a obra, pois terei três referências, ou seja, o que se comprava com os réis no século XVI e no século XIX e o que compra hoje com os reais.

Saudações.
Sílvio

ricardo caldas
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Re: O VALOR DO DINHEIRO.

Mensagempor ricardo caldas » sábado jan 17, 2009 6:59 pm

Meus Amigos
De facto este assunto é muito interessante!

Como não tenho qualquer livro que aborde este assunto, será que me conseguem dizer o que se compraria à época, com um Dobrão de D. João V?

Obrigado e um abraço a todos
Ricardo Caldas


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