600 réis - Carimbo de 1663 sobre Macuquina, uns apontamentos.

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doliveirarod
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600 réis - Carimbo de 1663 sobre Macuquina, uns apontamentos.

Mensagempor doliveirarod » domingo dez 17, 2017 3:19 am

Segue um exemplar interessante:

600r_zpsr8hixzcv.jpg


600 reis coroados sobre Cob de 8 reales, tipo com colunas.
Bolívia Colonial
Potosi
1671 P - E
prata
25,1 gramas
P(otosi) E(rgueta) - Manuel de Ergueta - Ensaiador.

A peça está em boas condições embora tenha alguma corrosão marinha. O carimbo é dos bons! A moeda tem um "plus", pois apresenta datação da base, e duas vezes, pois pode ser vista a data 1671 nos dois lados, além da letra do ensaiador, a conjunção de todas essas informações e do carimbo não é algo muito fácil de ver!

Como se sabe esse carimbo foi ordenado pelo Alvará do Reino de 22 de março de 1663, durante o curto reinado de Afonso VI. Assim, em cumprimento às ordens reais, o Conde de Óbidos, vice rei do Brasil, expedia o Alvará de 6 de julho de 1663 e seu Regimento de 7 de julho de 1663. Mandava o regimento revalidar a moeda portuguesa em 25%, ordenando a carimbagem dela aqui na colônia, em cumprimento ao alvará de Lisboa.

Quanto às moedas circulantes nas Conquistas, faz menção às patacas (grifos): Nas de prata, se abrirá o cunho, com valor, sem ter escudo, sobre as letras uma coroa, na forma seguinte: nos sellos que corriam a 480 réis, 600 ; nos cruzados 500; nos meio cruzados 250, nos meio sellos de 240, 300 réis; nas meia patacas 200, nas moedas de 120 réis, 150; nas de 100 réis, 125; nas de 80 réis, 100, nas de 60, 80, e nas que se acharem de 50 réis, 60, por se evitar nestas o prejuízo de não terem troco de outro modo.

Vê-se que o Alvará do Conde manda carimbar tudo que aqui circulava, as moedas portuguesas e a moeda da colônia, que consistia nas peças espanholas, carimbadas ou não, conforme os alvarás anteriores de 1643 (480 e 240 réis, respectivamente sobre 8 e 4 reales) e o de 1652 (120 e 60, respectivamente sobre 2 e 1 real). Assim, como moeda exclusivamente brasileira teríamos, portanto, os reales espanhóis carimbados. As moedas portuguesas, embora carimbadas e circulando também aqui, seriam, a rigor, moeda do reino.

Interessante ver as determinações do Conde de Óbidos quanto ao procedimento dessa carimbagem aqui no Brasil: Todo dinheiro de ouro e prata que houver nas capitanias da Bahia, Sergipe de El Rey, até o Rio São Francisco, Boipeba, Cairu, Camamú, Ilhéus e Porto Seguro inclusive, há de se vir receber novo cunho à officina desta cidade. Todo o que houver desde o Rio São Francisco, Lagoas (atual Alagoas), Pernambuco, Itamaracá, Parahiba, Rio Grande até o Ceará inclusive, há de se resellar na Casa dos Contos da Vila de Olinda (?).
Todo o da capitania do Espírito Santo, Parahiba, Cabo Frio, Rio de Janeiro, e mais logares ou villas que compreende a sua jurisdição, até confinar com a a Capitania de São Vicente, na Casa dos Contos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. E todo o das Villas de São Vicente, Santos, São Paulo, Parahiba, e mais logares que há naquela capitania, e fora della para o sul, na mesma casa donde costumam assistir os officiaes da Fazenda Real na Villa de São Vicente, e não sendo sufficiente, elegerá o provedor da Real Fazenda, com o capitão mor da mesma capitania, a que lhe parecer mais segura. (...)


Temos assim um retrato de onde se processou toda essa carimbagem no Brasil. Pessoalmente tenho dúvidas quanto a carimbagem na Villa dos Contos de Olinda. Olinda, até 1654, data da expulsão dos holandeses, era uma cidade arruinada. Por não poderem defendê-la, devido à sua posição geográfica, os holandeses incendiaram e demoliram a cidade. Assim, acho que a cunhagem dos carimbos deve ter se dado em Recife, cidade economicamente importante na época, ao contrário da destruída Olinda, em plena reconstrução.

Aliás, o Alvará do rei, para justificar a carimbagem, cita justamente a necessidade de defesa das terras brasileiras, que estariam na iminência de ser atacadas novamente. Era de fato a ameaça de uma nova invasão holandesa, que mesmo após a expulsão, não aceitavam a derrota, e pediam indenizações pesadas, chegando mesmo a bloquear o porto de Lisboa e saquear a esquadra vinda do Brasil, em 1657. O próprio Conde Nassau, figura tão famosa na conquista anterior, teria sido sondado novamente, mas não aceitou capitanear uma nova invasão com as condições a ele oferecidas.

Dos 25% valorados, cinco por cento seriam do dono da moeda, e 20% seriam recolhidos à Coroa, para fazer frente as ditas despesas com a defesa. Também seria uma medida para impedira a saída do numerário de metal precioso do reino e das colônias para o estrangeiro.

Analisando a data da peça em questão, 1671, podemos supor que essa carimbagem (ao menos no tocante às moedas "brasileiras) tenha continuado, de fato, até a expedição do Alvará de 23 de março de 1683, quando as moedas espanholas circulantes por cá foram revalidadas em 640, 320, 160 e 80 réis (8, 4, 2 reais e 1 real, respectivamente)

Um prazer estudar um pouco essas histórias e ler os alvarás, vendo nomes de velhas localidades tão familiares a mim atualmente!
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