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MensagemEnviado: segunda mai 18, 2009 5:00 am 
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Reinado D.Afonso Henriques
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AS OBSIDIONAIS BRASILEIRAS - O VERDADEIRO E O FALSO.

1.0 - ESCORÇO HISTÓRICO

Anexo:
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(Mapa da cidade de Olinda conquistada - 1650)

As relações entre Portugal e os Países Baixos datam de longa data. Com a grande expansão ultramarina portuguesa iniciada no fim do séc. XV, o reino conquista terras e alcança riquezas e produtos então vitais para a econômia européia de então. Entretanto, a centralização política portuguesa ( Portugal foi o primeiro reino europeu a superar o feudalismo, com a centralização monárquica criada por D. João I ), que num primeiro momento serviu para impulsionar o país rumo aos descobrimentos, num segundo momento demonstrou ser um entrave ao capitalismo, visto que era ao Estado português que cabia investir no descobrimento de terras, na sua exploração e guarda, e com o Estado ficavam os lucros resultantes desses investimentos. Isso impedia o desenvolvimento de uma burguesia nacional e o acúmulo de capitais nas mãos da mesma, pois a iniciativa particular não era tolerada pelo Estado português, que absorvia praticamente quase todas as rendas obtidas no comércio colonial, e decidia soberanamente onde investir tais lucros. Os representantes do capital comercial não ocupavam postos de importância na hierarquia estatal que pudessem fazer valer seus interesses. Tais postos eram entregues à uma nobreza tradicional e parasitária, o que gerava ineficiência, gastos excessivos com a côrte e muita corrupção.
Na ausência de uma burguesia interna forte, que não podia surgir dentro desse contexto, Portugal era incapaz de promover a comercialização, junto ao mercado europeu, dos produtos e riquezas que vinham de suas várias colônias. Junto a esse problema, havia também o fato que a centralização estatal estagnava a produção interna portuguesa, visto que a produção e a manufatura nacional não recebiam capitais, destinados pelo Estado prioritariamente à defesa e a manutenção das colônias, e a consequência disso era a dependência do país em relação aos produtos externos, principalmente dos manufaturados.
Assim, o reino português dependia de países como Inglaterra, França e Holanda para comercializar e distribuir seus produtos dentro da Europa, bem com também era dependente dos manufaturados que esses países fabricavam e que não eram produzidos no reino para seu mercado interno. A dependência externa existia então em dois níveis: Da metrópole em relação aos produtores de manufaturados e também das colônias, que necessitavam da metrólpole para seu abastecimento, e que também eram abastecidas indiretamente por centros produtores externos.
O deficit da balança comercial portuguesa sempre era grande: O país importava mais do que exportava, e isso era compensado pelas riquezas que vinham das suas possessões.
Certos fatos ilustram muito bem o grau da dependência de Portugal, nesse caso, particularmente em relação à Holanda: A maior parte da instrumentação náutica e das armas usadas pelos portugueses vinham de Flandres e de Brabante (algo também vinha de Florença/Itália). As "Urcas" holandesas supriam as deficiências da marinha mercantil lusitana no transporte do açucar brasileiro para Lisboa (66% desse transporte era feito pelos flamengos). Houve períodos em que os holandeses chegaram a controlar cerca de 2/3 do do comércio do açucar brasileiro, financiando a produção e o refino, haviam 25 refinarias de açucar brasileiro instaladas em Amsterdam!
Assim, facilmente se verifica que os países baixos eram um dos grandes (se não o maior à época) beneficiados pelo comércio com Lisboa, os lucros obtidos pelos flamengos com esse financiamento e produção eram altíssimos.

1.1 - A UNIÃO IBÉRICA


Anexo:
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(Felipe II de Habsburgo, Felipe I de Portugal)

Com a morte de D. Sebastião em Marrocos, na mal sucedida batalha de Alcácer Quibir, assume seu tio D. Henrique, um cardeal idoso, que morre sem deixar herdeiros em 1580, e com ele acaba-se a dinastia de Avis. D. Felipe II da Espanha, neto de D. Manuel o Venturoso, reclama o trono, e se sobrepõe a seus concorrentes. As forças espanholas invadem Portugal, e com o apoio da nobreza, dá-se início à União Ibérica, em que o reino português seria governado pelo rei da Espanha. Em 1581 ocorre o juramento de Tomar, onde Felipe II, compromete-se a respeitar a autônomia portuguesa e de suas colônias, bem como as leis e costumes do país.
Ao longo de sua história até então, Portugal tinha desenvolvido uma política de neutralidade em relação aos demais conflitos europeus. Não entrou em guerra nem com a França, que havia mais de uma vez invadido o território brasileiro tentando estabelecer colônias, sendo expulsa em guerras que foram travadas tão somente no âmbito colonial.
Com a União Ibérica o quadro da neutralidade portuguesa muda radicalmente. Unido com a Espanha, o país acaba envolvido nos conflitos europeus, pois a Espanha dominada pelos Habsburgos tinha vários interesses no continente, e era parte em diversas e dispendiosas guerras dinásticas e sucessórias.
Felipe II seguiu a política intervencionista de seu pai, Carlos V, e tentou influir em vários dos assuntos europeus. O governo de Felipe II era absolutista, e na Espanha de então grassava uma enorme intolerância religiosa, encabeçada principalmente pela "Santa" Inquisição. A política de Felipe II era também opressiva, e o rei apoiava a intolerância católica, sendo ele mesmo um fanático religioso. Assim, desrespeitou as tradições dos Países Baixos, que eram domínios espanhóis (visto que herdados por Felipe II de seu pai, Carlos V), reprimindo o Calvinismo, e tributando pesadamente as Províncias Holandesas, enriquecidas com o intenso comércio praticado pela forte burguesia comercial local. O imperador espanhol não podia tolerar "heresias" em seus domínios, e nomemu juízes e sacerdotes espanhóis de sua confiança para controlar os Países Baixos. A fogueira da inquisição católica começa a arder em terras holandesas, e com ela vem também o confisco dos bens dos "heréticos" em favor da coroa espanhola.
Os ricos Países Baixos então se rebelam, diante de tamanho descontentamento, e começam as revoltas internas e lutas contra as tropas espanholas lá estacionadas. Mesmo com o poderio militar espanhol e com a repressão promovida pelo Duque de Alba, os revoltosos não recuam. As 17 províncias que formavam os Países Baixos se unem contra Felipe II, e a guerra começa a ficar custosa demais até mesmo para o rico erário espanhol, abarrotado de prata colonial. As províncias do Sul, temerosas do poderio espanhol, se submetem em 1579, mas as províncias do Norte prosseguem em sua luta. Assim, as províncias setentrionais em número de 7, formaram a União de Utretch, liderada por Guilherme de Orange, que não reconhecia a soberania espanhola. Com o assassinato de Guilherme pelos espanhóis, a luta armada prossegue, e surge a República da Holanda, ou as Províncias Unidas dos Países Baixos.
Ora, com Portugal sob o domínio espanhol, e a Espanha em luta com a então recém criada República da Holanda, evidentemente que o vantajoso comércio travado entre Lisboa e os Países Baixos, onde esses últimos auferiam lucros incríveis, encontrava-se impossibilitado. Felipe II proibiu tal comércio, ficaram os navios flamengos proibidos de aportar em terras sob domínio espanhol, isso incluia naturalmente Portugal, Brasil e as demais colônias lusas, que estavam agora vedados ao comércio holandês.

1.2 - A COMPANHIA DAS INDIAS OCIDENTAIS.

Anexo:
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(Bandeira da Companhia das Indias Ocidentais - GWC, e sargento holandês com alabarda)

Conforme exposto acima, vê-se que o lucrativo comércio travado entre Portugal e colônias com as Províncias Holandesas encontrava-se impossibilitado devido à União Ibérica e as guerras de Felipe II, que acabavam por envolver Portugal, direta ou indiretamente.
Assim, com a independência da Holanda, esse país teve que rever o seu comércio, reorganizando-o conforme as novas regras agora impostas. Surgiu assim a sua primeira companhia de comércio, a Companhia das Indias Orientais - O.I.C., em 1602 (A O.I.C. cunhou muita moeda nas colônias orientais, até o seu desaparecimento no início do séc. XIX). Era a O.I.C. uma Sociedade Anônima (S.A.), e mobilizava investimentos em âmbito nacional inicialmente, e logo após em âmbito internacional. Era uma companhia privilegiada, pois era isenta de impostos, e chegava mesmo a suprir o papel colonial do próprio Estado! Algo muito avançado para a época. Os lucros obtidos pela companhia na Ásia eram assim imensos, e deixavam cada vez mais ricos os seus acionistas, de forma que as ações da Companhia Oriental eram cada vez mais valorizadas e procuradas. Com tanto poder financeiro, não demorou para que o monopólio ibérico fosse quebrado nas Índias e Oriente, e os Holandeses começaram a conquistar colônias e monopólios comerciais que antes eram da Coroa Portuguesa (como Málaca e Ceilão, por exemplo).
A Companhia das Índias Orientais foi tão bem sucedida econômica e militarmente, que os flamengos resolveram repetir a idéia, só que agora na exploração de colônias no Ocidente. Surge assim, em 1621, a Companhia das Indias Ocidentais - Geoctrojeerde Westindische Compagnie, que também tinha o mesmo formato de Sociedade Anônima, e com a estrutura financeira montada, não demoram os holandeses a voltarem seus olhos ao rico e lucrativo Brasil açucareiro, de cujo comércio tinham oficialmente sido privados (claro que por "baixo do pano" muita coisa passava) pelo odiado D. Felipe da Espanha.
Entretanto, ao contrário da Companhia das Índias Orientais, que lidava com povos até bem desenvolvidos de civilizações bem antigas e ricas, e com bom conhecimento da prática comercial, a Companhia Ocidental iria lidar com povos indígenas semi bárbaros, com inimigos mais numerosos e bem armados que no Oriente (o comércio portugues no oriente já era decadente), e com terras estranhas e muitas vezes inóspitas para os flamengos. Para obter o açucar, o pau brasil e outros tão desejados produtos, seria necessário lutar muito, bem mais que nas bandas orientais, eram necessários muito mais homens, armas e navios, e bem mais dinheiro.
Assim, tinha a GWC um caráter bélico bem mais acentuado que sua irmã oriental, era uma companhia voltada muito mais para a conquista militar, ocupação e pirataria em grande escala (dos galeões portugueses abarrotados de açucar, e dos espanhóis carregados da prata do novo mundo) do que ao comércio propriamente dito. Era na verdade um exército paralelo ao Estatal, mantido com capitais privados, com base em mercenários contratados, e era uma das forças mais poderosas no mundo de então!

1.3 - AS INVASÕES HOLANDESAS NO BRASIL COLONIAL.

Anexo:
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(Oficial luso-brasileiro com espada rapieira de estocada, a faixa na cintura indica a patente de oficial)

Anexo:
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(Negro com mosquete, talabarte com cargas de pólvora, espada, polvorilho e isqueiro)

Anexo:
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(indio com arco e flecha. Guerreiros nativos foram usados por ambas as partes beligerantes, de acordo com as alianças que conseguiam)

Em 1624, surgiam no mar da Bahia 26 galeões de guerra holandeses transportando mais de 3.000 homens em armas. A esquadra era comandada pelo general Jacob Willenkens. A Bahia foi escolhida por ser um grande centro açucareiro, bem como por ser a capital da América portuguesa. A invasão tinha sido planejada já em 1623, e apesar de saber antecipadamente da grande probabilidade desse ataque, o governador Diogo de Mendonça Furtado (aliás, pelo sobrenome talvez um antepassado meu :) ) não organizou as defesas, por acreditar que não seria em Salvador que aportaria toda aquela expedição, além de ceder à pressão feita pelo bispo Marcos Teixeira, que queira dispor do numerário separado para a defesa a fim de utilizá-lo em obras para a Igreja Católica. Após a investida desse exército, a despreparada Salvador sucumbe após alguns combates, e a população foge para o interior e para os engenhos afastados. Logo a resistência começa a se organizar, e um dos líderes foi justamente o bispo Marcos Teixeira, talvez atormentado pelo arrependimento...
Em 1625, chega a Bahia uma poderosa esquadra luso-espanhola, liderada por D. Fradique de Toledo. Acossados por terra e sem poder receber reforços pelo mar, os holandeses acabam por depor as armas. O general Willenkens é morto em combate, tem a cabeça decepada e exposta em Salvador. A esse malogro da GWC somou-se também mais ataques fracassados nas colônias portuguesas na África e nas Antilhas espanholas. O prejuízo foi grande à Companhia, que esteve com as ações em baixa e realmente à beira da bancarrota. Entretanto, em 1628, os holandeses conseguem uma grande presa. Peter Heyn apreende, ancorada na Ilha de Cuba, uma esquadra espanhola, abarrotada com um carregamento de prata do México. A presa foi tão boa que conseguiu cobrir os prejuízos com os fracassos anteriores. Assim, a GWC se livra da quebra, e pode preparar seu segundo e bem sucedido ataque às cobiçadas terras do açucar.

1.4 - A CONQUISTA DE PERNAMBUCO

Anexo:
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(Típico engenho de cana de açucar pernambucano do séc. XVII)

Após 5 anos da fracassada invasão à Bahia, retornam de novo os flamengos ao Brasil, dessa vez o alvo não é mais Salvador, mas Recife, a capital de Pernambuco. A escolha se deveu pelo fato de que o Recife era menos guarnecido que a bem fortificada Salvador, e que Pernambuco era então o principal centro açucareiro da colónia. Tal com na invasão da Bahia, foi a GWC que forneceu os planos, recursos e homens para a invasão.
Em fevereiro de 1630, o Recife treme ao perceber que se aproximam de seu porto 56 velas holandesas, entre elas vários dos melhores e mais bem armados galeões da época. A bordo o comandante Corneliszoon Lonk comandava mais de 7.000 homens, a maioria mercenários alemães, poloneses, franceses, dentre outras nacionalidades.
A resistência é capitaneada por Matias de Albuquerque. Ele manda colocar grandes correntes unindo alguns navios que se encontravam no porto do Recife, e os coloca a pique. Isso bloqueia a entrada do porto, e os Holandeses são obrigados a procurar outro local onde proceder desembarque, que ocorre mais a norte, na praia de Pau Amarelo. A resistência dura alguns dias apenas, apesar de feroz, e de causar perdas ao invasor, o mesmo contava com uma superioridade de armas e soldados treinados. Cai Olinda, e logo após o Recife. Matias de Albuquerque abandona a cidade que não podia mais ser defendida, e vai mais um pouco mais ao interior, onde funda o arraial do Bom Jesus, que seria o centro da resistência luso brasileira.
Como a coroa não mandava recursos, os holandeses fortalecem suas posições, e de Pernambuco partem para a conquista das terras de Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Iniciava-se um domínio que iria durar quase 30 anos. A defesa nativa é então baseada nas táticas de guerrilha, já que um combate nos moldes normais era inviável. Criaram-se as chamadas "companhias de emboscada", pequenos grupos de dez a no máximo quarenta homens, com grande mobilidade, que atacavam de surpresa os holandeses, retirando-se rapidamente, e reagrupando-se depois para novos combates. Os senhores de engenho começam a aceitar o domínio da GWC, pois de qualquer forma, eles injetavam um capital novo na produção, coisa que a coroa portuguesa já não estava podendo fazer direito.

1.5 - MAURÍCIO DE NASSAU.

Anexo:
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Para consolidar a conquista, A GWC envia ao Recife o conde João Maurício de Nassau-Siegen (Nassau era alemão, príncipe do pequeno Estado de Nassau-Siegen), que chega em 1637, junto com uma armada de 12 navios e 2.700 homens.
Nassau revelou-se um estadista e um bom diplomata, estabelecendo boas relações com os senhores de engenho e gentes da terra, emprestava dinheiro para que os engenhos voltassem a funcionar ou expandissem suas capacidades, aumentando a produção e incrementando as técnicas.
Permitiu a liberdade de culto, inclusive aos judeus, que no Recife vieram a fundar a primeira sinagoga das américas.
Decidiu transformar o Recife numa capital moderna, a "cidade Maurícia", ou Mauritsstad
, providenciou vários aterros, construiu diques, canais, pontes, e até palácios para a administração (o principal esteve de pé até o séc. XVIII, quando um governador português mandou derrubá-lo).
Trouxe pintores, artistas, pesquisadores, criou coleta de lixo, um corpo de bombeiros e até um observatório astronômico em plenos trópicos!

Anexo:
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([Indio Tapuia pintado por Albert Eckhout, artista da comitiva de Nassau)

Com uma boa administração aliada à conquistas militares, Nassau consolida o poder holandês. Derrota o Conde de Bagnoli em Alagoas, oficial italiano a serviço de Portugal, que bate em retirada para Sergipe. Em 1637 enviou o coronel Hans Koin chefiando uma expedição naval que contava com mercenários e índios tapuias brasileiros, conquistando o Forte de São Jorge da Mina (a mais antiga possessão colonial portuguesa) na costa africana. A possessão portuguesa da Mina foi colocada sob o controle de Recife.
Tenta novamente a invasão da capital da Bahia, Salvador, mas encontra lá forte resistência, e não obtém sucesso. Entretanto, expandiu a conquista com a anexação do litoral das Capitania do Ceará, Sergipe e Maranhão.

Em 1640 Nassau volta-se contra Luanda. O objetivo era quebrar o fornecimento de escravos para a Bahia, e assim dobrar o que ainda resistia do Brasil português, que ficaria sem mão de obra para a cana de açucar, mas o motivo maior era cortar o suprimento de escravos destinados as minas de prata da América Espanhola. Seria um duro golpe para a dependente coroa espanhola. Sai de Recife uma poderosa esquadra em direção a Luanda, diante da armada, a cidade cai sem resistência, indo a tropa e a população portuguesas se refugiar em Massangano. Toma também São Tomé e feitorias na Guiné. No mesmo ano, ainda arranca dos portugueses a ilha de São Luis do Maranhão.

Apesar dos esforços e conquistas de Nassau, o Brasil holandês não ia bem. O preço do açúcar tinha começado a cair, e os senhores de engenho começavam a se rebelar contra a GWC, visto que deviam a ela mais de 5 milhões de florins (empréstimos concedidos por Nassau para incrementar a produção), e a volta do domínio português seria uma boa chance deles não quitarem essas dívidas. Junte-se a isso uma praga de bexigas que assolou a negraria, matando vários escravos, e fazendo a produção despencar ainda mais. Nassau também tinha gasto demais em prol da cidade de Recife, que segundo seus sonhos seria a grande capital do domínio holandês no Brasil, e a GWC estava insatisfeita com tais dispendios com o engrandecimento da cidade. Começam as falências de empresas açucareiras em Amsterdã, e as ações da GWC caem.
Nassau é chamado de volta à Holanda, para nunca mais voltar ao Brasil, em 1644.
Em seu lugar assume o governo a junta denominada de Conselho dos XIX, com sede na Holanda, que dava ordens ao Alto e Secreto Conselho do Brasil, responsável pela administração direta, cujo objetivo principal era "espremer" o máximo de lucros possíveis da terra para compensar os investimentos e prejuízos experimentados.
Nassau volta à Holanda, onde ainda chegou a Governador de Kleve, pegou em armas contra a França e a Espanha, e foi nomeado governador de Utrech.
Nassau permanece vivo na memória do povo de Pernambuco até os dias de hoje. Ele tornou o Recife uma cidade digna da qualificação de grande centro urbano à época. Foi tolerante, diplomata, e desenvolveu a urbanização e o embelezamento da cidade. Existem hoje ruas, praças, uma ponte e uma faculdade com seu nome no Recife.

Anexo:
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(Mauritsstad, o Recife como a Cidade Maurícia)

1.6 - A RECONQUISTA.

Anexo:
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(A batalha dos montes Guararapes, numa pintura do séc. XIX)

Com a saída de Nassau e a crise do preço do açucar, a GWC, por meio do Alto e Secreto Conselho sediado em Recife, começa a cobrar dos senhores de engenho de Pernambuco os empréstimos concedidos por Nassau. Tais cobranças não podiam vir em pior hora, uma praga fez cair a produção de açucar, e o mesmo encontrava-se em baixa. O resultado foi que os holandeses começaram a desapropriar os engenhos, por motivo de dívidas que já estavam em cerca de 130 tonéis de ouro, correspondentes a 13 milhões de florins. Sem Nassau, a cidade do Recife também não recebe mais os investimentos de outrora, e começa a decair. A insatisfação é geral. Os senhores de engenho queimam as propriedades, os estoques de açucar, e fogem para o mato, começava a insurreição pernambucana, onde os portugueses, os luso-brasileiros (mazombos), e os negros e índios aliados iriam enfrentar um dos melhores e mais equipados exércitos da época.
Os senhores de engenho João Fernandes Vieira (português) e André Vidal de Negreiros (brasileiro branco - "Mazombo") dão impulso a revolta. Apoiam os senhores de engenho o índio Felipe Camarão, lider indígena poti e aliado da coroa portuguesa, e o ex-escravo Henrique Dias, que comandará o contingente de negros e ex-escravos aliados dos luso-brasileiros. Como alega a história oficial, aí começa a surgir o conceito da nacionalidade brasileira, na luta das três principais raças formadoras do Brasil contra um inimigo mais forte e comum.
Começam as guerrilhas contra as tropas regulares holandesas, que começam a ser derrotadas pouco a pouco, batalha após batalha, num processo de desgaste doloroso para ambas as partes (Vitórias dos montes das Tabocas, Casa Forte, etc...)

1.7 - A ÚLTIMA BATALHA.

Anexo:
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Tropas luso-brasileiras com seus variados integrantes (portugueses, espanhóis, italianos, mazombos, negros, mestiços e índios) enfrentam um dos mais poderosos exércitos de então.

Quando da primeira Batalha dos Guararapes, os exércitos luso-brasileiros contavam com cerca de 2.200 homens, que eram divididos em quatro terços, comandados pelos quatro mestres-de-campo já mencionados: João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros, o governador dos Índios, capitão-mor Filipe Camarão, e o governador dos pretos, Henrique Dias. Os terços não dispunham de nenhuma artilharia de apoio.

A velha técnica portuguesa de combater, testada nas guerras contra Espanha, no Alentejo, baseava-se no estilo das guerras de Flandres. Os exércitos eram formados por Terços de Infantaria, formados por 2000 homens, subdivididos em 10 companhias de 200 homens cada uma, formadas por igual número de piqueiros e arcabuzeiros. Os piqueiros dispunham de um longo pique (18 pés de comprimento), espada, peitoral e celada; os arcabuzeiros, sem armadura defensiva, dispunham apenas do arcabuz ou espingarda de mecha com sua forquilha e uma adaga. Nas guerras européias marchavam em formação de grandes quadrados de 50 piqueiros em cada face, rodeados e flanqueados nos vértices por outros quadrados de arcabuzeiros, alternando assim as descargas de armas de fogo com as cargas de armas brancas. Dentro da realidade brasileira, de seus campos cerrados de matas e de mangues, e da inferioridade tecnológica dos luso brasileiros, essas técnicas de nada valiam, e tiveram que ser solenemente ignoradas, aqui valia a criatividade. A surpresa, a guerrilha e o ataque/recuo foram grandes instrumentos utilizados. A capacidade de improviso, resistência e habilidade na espada ajudaram demais as tropas nativas.
O conselho dos XIX sediado no Recife, manda à Amsterdã a seguinte correspondência, datada de 1648:

"Todos os dias a experiência nos mostra que se habituaram a esta guerra de tal modo que podem medir-se com os mais exercitados soldados, como se tem visto nas refregas que com eles temos tido e como ainda se vê diariamente nos encontros que temos com eles a cada momento. Resistem muito bem agora de pé firme e logo que descarregam suas espingardas atiram-se sobre os nossos, para se baterem corpo a corpo. Sabem também armar emboscadas em lugares e passos apropriados e vantajosos, fazer sortidas dentro do mato e, em geral, produzir muito mal aos nossos. Quanto às armas estão bem munidos, sabem muito bem se servir delas, e no tocante às suas qualidades corporais excedem muito aos nossos soldados mais exercitados, quando à agilidade e disposição. Além disso, sabem melhor que os nossos se submeter as provações, tais como a falta de víveres, enquanto os nossos soldados têm de carregar sempre alforges ou então transportar os víveres logo atrás deles."

No dia 17 de abril de 1648,O governador das Armas Holandesas, Sigmund von Schkoppe, conhecido pela crueldade com que tratava os seus adversários e pelo espírito de disciplina para com seus subordinados, saiu do Recife no comando de um formidável exército de 4.500 homens, divididos em sete regimentos, acrescidos de cerca de 1000 índios tapuias e negros carregadores. Tinha 71 bandeiras, e contava com 6 peças de artilharia. De acorodo com as reformas implantadas por Maurício de Nassau, que visava adaptar mais a técnica de combate à realidade do Brasil, os batalhões dos exércitos holandeses no aqui eram formados por 500 homens, divididos por fileiras de 300 piqueiros (grandes lanças de 18 pés de comprimento) e 200 mosqueteiros, que se alternavam por ocasião do desenvolvimento da batalhas.

As tropas luso-brasileiras chegaram a Guararapes "no sábado, à tarde, e pelas 10 horas da noite se acabaram de situar em troços, em uma baixa e planície que está ao pé do último monte, que vulgarmente chamam Outeiro", distante três léguas do Arraial Novo e uma légua da Muribeca. Restava ao inimigo uma passagem de pouco mais de cem passos de largo, cerca de cem metros, entre o monte e um terreno alagadiço que o contornava. Estacionava assim os luso-brasileiros, escondidos entre a vegetação e o manguezal, "em sítio acomodado, não só para reprimir o ímpeto do inimigo, mas ainda para destruí-lo".

Mantendo escondidas as tropas, Barreto de Menezes faz avançar através do Boqueirão, sobre os holandeses, cerca de 200 a 300 homens, apenas para atraí-los para uma grande emboscada, fazendo crer ao inimigo que somente uma pequena força lhes disputava aquela importante passagem para o sul. Von Schkoppe não pensou duas vezes. Ordenou que uma força composta de seu regimento e dos regimentos dos coronéis Van Elst e Keervaen atacasse com presteza a pequena força luso-brasileira e conquistasse o Boqueirão.
Durante o ataque, muitos holandeses, visto a frente estreita do Boqueirão, progrediam com grande dificuldade através dos alagados (manguezais, lama mole), que julgavam solo firme, para envolverem pela esquerda a tal força pequena ao comando de Dias Cardoso. A ala direita holandesa iniciou a progressão com vistas a desbordar os luso-brasileiros, através de um ataque envolvente pela direita. Assim, tinham os holandeses caído na grande emboscada que os luso-brasileiros lhes haviam preparado, acreditaram que as forças que os esperavam eram reduzidas, e "emburacaram" no boqueirão. Nesse momento, o Mestre de Campo Barreto de Menezes ordenou um ataque total à espada dos luso-brasileiros, que se mantinham com o grosso de suas forças, a coberto, pelo monte Oitizeiro e restinga de mato nos alagados. Ordenado o ataque geral, após breves trocas de tiros que poucas baixas causaram, foi desfechado o violento ataque a espada encima dos holandeses, na estreita faixa do interior do Boqueirão local para onde foram atraídos os batavos. O valente ataque surpreendeu os holandeses que pensavam que iriam enfrentar (e esmagar) uma pequena força inimiga.
Logo se criou a confusão e a desordem no dispositivo holandês, provocando a deserção de muitos de seus soldados. Ao virarem as costas aos luso-brasileiros para retrair, muitos holandeses foram abatidos à espada.
Os numerosos holandeses que correram para os alagados (mangues) encontraram a morte ali mesmo, principalmente abatidos a tiros, lançaços, à espada, talvez pelas forças de Felipe Camarão (chefe índio), por certo habituadas a deslocarem-se nos alagados.

Nos gráficos abaixo o breve esquema da batalha:

Anexo:
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(Holandeses atacam, são atraídos para dentro do Boqueirão, perseguindo uma pequena força de "isca")

Anexo:
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(Ataque da totalidade das forças luso-brasileiras para cima dos holandeses, encurralados no boqueirão. Ao tentarem fugir, morrem à espada e a tiros, dentro dos alagados)

Os holandeses ainda tentam um contra-ataque com as forças reservas:

Anexo:
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Mas saem repelidos num violento contra ataque, e a frente de batalha se estabiliza em favor dos luso-brasileiros.

Os luso-brasileiros se recompunham do grande desgaste do dia, e se reorganizam para o combate no dia seguinte. Os holandeses, aproveitando-se da noite, bateram silenciosamente em retirada para a Leiteria (Boa Viagem), debaixo de enorme aguaceiro que caiu durante a noite. O dito aguaceiro apanhou os luso brasileiros em posição em campo aberto, castigando-os e impedindo um sono reparador, ao mesmo tempo que agravou os sofrimentos dos feridos.

Pela manhã, foram lançados reconhecimentos na direção holandesa e feitos prisioneiros alguns sentinelas que desconheciam a retirada de seu exército. O Cel Van der Branden retirou-se com 3200 homens de seu exército, ou 50% do efetivo inicial, de vez que os restantes 3200 tombaram em combate, desertaram, esconderam-se nas matas próximas ou foram encarregados do transporte de feridos. Essa vitória rendeu aos luso-brasileiros farta munição, bons armamentos, dinheiro e duas peças de artilharia.

Animada com essa grande vitória, a coroa portuguesa resolve então mandar reforços, vendo que, ao contrário do que pensava D. João IV e seus ministros, Pernambuco não estava irremediávelmente perdido. Em agosto de 1648, chegam a Pernambuco 300 infantes dos terços da Ilhas, armados com material moderno, suas arcabuzes compridos alcançavam distância maior até do que os dos holandeses.

Em 1649, mais uma força holandesa, composta de 3.510 homens, comandados pelo coronel Van der Brincken, sai de Recife ao encontro dos luso-brasileiros nos montes Guararapes, iniciando assim a segunda batalha dos montes. Na vanguarda muitos soldados com chuços e piques, para reprimir a temida investida à espada luso-brasileira. Ao encontro dessa nova força seguem os luso-brasileiros aos montes Guararapes, e lá já a encontram instalada, ocupando o boqueirão onde ocorrera a primeira batalha, e a baixa, ostentando grande aparato de guerra, pesadas peças de artilharia e muitas bandeiras. Os holandeses esperavam as tropas nativas avançando pelo norte, mas para sua surpresa, elas acabaram atacando pelo sul, onde não eram esperados, visto que lá predominavam os "pântanos" (mangues), e o deslocamento era mais difícil.
E assim ficaram os exércitos: O holandeses numa posição mais alta, ocupando o monte, e os luso-brasileiros em baixo, ao pé do monte, entocados nos mangues, barrando qualquer retirada. Os grupos de lusos brasileiros se espalhavam, escondendo-se nos matos e canaviais, acompanhando os movimentos holandeses e atacando de emboscadas.
Imobilizados encima dos montes, e longe das fontes de água, fechadas pelas tropas nativas, os batavos começavam a sofre de sede com o imenso calor que fazia no monte. Assim o coronel Van der Goch descreve a situação:
"Tendo tomado em consideração que o inimigo não seria facilmente seduzido a dar combate, visto conservasse posição privilegiada nos matos e por detrás dos pântanos, e que as nossas tropas ficando sobre os montes, que são desertos, sem sombra e água, seriam extremamente fatigadas e enfraquecidas, procedeu-se à convocação dos chefes da expedição para deliberarem juntamente sobre o que fazer nessas circunstâncias, e todos por unanimidade opinaram que não se devia aconselhar conservar as tropas ainda por mais tempo no alto dos montes, com a esperança incerta de chamar para lá o inimigo, e que por consequência as tropas deviam retirar-se antes que os embornais ficassem inteiramente vazios e os soldados inteiramente esgotados pelo calor excessivo"

Às 3 horas da tarde, começam os regimentos holandeses a descer dos montes, em ordem. Ao tomar conhecimento da retirada, e aproveitando-se do erro estratégico dos inimigos, os lusos-brasileiros fazem valer suas posições privilegiadas, e começam um ataque que seria um verdadeiro massacre. Frente a força dos ataques, os expostos holandeses começam a desertar e a fugir, conforme relata carta de um oficial:
"O tenente coronel Claes com o regimento do tenente general do qual naquele momento tinha o comando, e o coronel Hauthyn, tendo entrado ambos igualmente em ação contra o inimigo, e tratando de reconquistar a garganta do monte abandonado, tiveram que recuar igualmente para o monte, por causa da excessiva força do inimigo, que então veio com tanta impetuosidade sobre os nossos que as nossas tropas começaram a fugir e acharam-se logo na maior confusão, a tal ponto de que nem palavras nem a força puderam contê-las, apesar de todos os esforços dos oficiais em geral e do abaixo assinado em particular, tendo, pela brandura como pela força. Essa fuga e confusão foram consideravelmente aumentadas pelas tropas dos coronéis van der Brande e van Elst, que descendo o monte vieram correndo o mais que podiam atirar-se em confusão nos mencionados regimentos do tenente general e de Hauthyn, produzindo nele uma desordem completa"

Após cerca de três horas de luta ferrenha, relata o major António de Souza Junior:
"Vieira se foi unir e incorporar com André Vidal de Negreiros, Francisco Figueiroa e António Dias, e todos juntos foram apertando com o o inimigo de tal sorte que o fizeram precipitar e despenhar por aquelas barrocas e grotas dos montes Guararapes, donde lhe fizeram grande estrago e mortandade, com que já estava já toda aquela campanha dos altos e baixos dos montes lastrada e juncada de corpos dos inimigos, que era uma cousa horrenda de se ver tanta mortandade, tantas e tão espantosas feridas, tantos corpos sem cabeças, braços, pernas, uns já mortos, outros agonizando e lutando com a morte, outros revolvendo-se em sangue e muitos urrando e gritando com ânsias e agonias mortais, não poucos dando e exalando o último suspiro."

O relato do português está bem de acordo com o relato de seu "colega" oficial holandês, que assim descreveu em carta à GWC a retirada:
"Em referência ao combate acima relatado, observei principalmente duas particularidades que, em minha opinião, merecem bem atenção: Em primeiro lugar, as tropas do inimigo saindo do mato e por detrás dos pântanos e de outros lugares tinham a vantagem da posição, atacavam sem ordem e em completa dispersão e aplicavam-se a romper diferentes quadrados. Em segundo lugar, as tropas inimigas são ligeiras e ágeis de natureza, para correrem para adiante ou se afastarem, e por causa de sua crueldade inata são também temíveis. Compõem-se de brasileiros, tapuias, negros, mulatos, mamelucos, nações de todo o país e também de portugueses e italianos, que tem muita analogia com os naturais do país quanto à sua constituição, de modo que atravessam e cruzam os matos e brejos, sobem os morros tão numerosos aqui e descem tudo isso com uma rapidez e agilidade verdadeiramente notáveis. Nós, pelo contrário, combatemos em batalhões formados como se usa na mãe pátria, e nossos homens indolentes e fracos, nada afeitos à constituição do país, disso resulta que essas espécies de ataque com armas de fogo, como acima se trata, devem ter inevitávelmente bom resultado, e que rompendo nossos batalhões e pondo-os em fuga, matando-nos um maior número de soldados em perseguição do que teriam feito em combate mesmo. (...) Além disto, as peças de artilharia de campanha não podendo ser apontadas sobre bandos ou grupos dispersos, tornam-se inúteis, ou para melhor dizer, ransformam-se em verdadeiras charruas para o nosso eército, sem contar uma multidão de outros inconvenientes, muito numerosos para serem aqui apontados."

Após essa derrota, a capacidade de ataque dos batavos se anula, e tudo que se pode fazer do lado deles é defender o Recife, bem fortificado ainda. Mais uma vez os luso-brasileiros tomam boas quantidades de pólvora, dinheiro, armas e peças de artilharia.
A moral das tropas batavas cai a níveis alarmantes, o número deserções começa a subir.

Nesse ínterim, Angola é recuperada pelas tropas de Salvador Correia de Sá, em 1648. A situação para os holandeses piora tanto que os Estados Gerais pediram uma declaração de guerra formal contra Portugal, bem como autorização de pirataria e corso contra as embarcações portuguesas em qualquer lugar do globo. O embaixador em Haia, Souza Coutinho, é comunicado da exigência do imediato reconhecimento do Brasil holandês e do Ocidente Africano (Angola e São Tomé) por D. João IV. O embaixador ganha tempo, fazendo propostas de venda de Pernambuco e Angola a preços altíssimos. Os Estados Gerais decidem cercar o porto de Lisboa com uma esquadra de 25 navios de guerra, caso Portugal não restaurasse o que a GWC havia perdido na Africa e no Brasil. A guerra agora ameaçava chegar embaixo das janelas de D. João IV, que se mostrava inclinado a vender Pernambuco aos holandeses. Mas para soret de Portugal, a Inlaterra e a Holanda entram em guerra pela supremacia dos mares em 1652, e a esquadra holandesa que faria o bloqueio do porto de Lisboa, evidentemente, teve que ser mobilizada contra as poderosas forças británicas.

Havia o temor das cortes de que, caso abandonados pela coroa, os pernambucanos buscassem ajuda dos ingleses, qualquer príncipe cristão, ou mesmo da odiada coroa de Castela. Em 1652, com os esforços holandeses canalizados contra os británicos, era hora de tomar de volta o Recife, último bastião de defesa. Diante das vitórias dos Guararapes e da guerra batavo-británica, D. João IV resolve agir e desafiar o poderio holandês.

Em 1653, surge na costa recifense a frota da Companhia de Comércio do Brasil, composta de 77 navios sob o comando de Pedro Jaques de Magalhães. A defesa do Recife estava nas mãos de homens cansados e desmoralizados, mal pagos e com salários atrasados. A esquadra toma posição de ataque, bloqueando a entrada do porto de Recife. Cercados por mar e por terra, os holandeses desmotivados começam a entregar suas fortalezas, uma a uma, e a baixar as armas e bandeiras. Não havia mais meios nem motivação para lutarem.
Em 26 de janeiro de 1654, assinam os holandeses a rendição, pondo fim à sua aventura no Brasil e ao sonho do Pernambuco holandês.

A rendição holandesa aqui representou o início do declínio do poderio comercial e militar batavo, iniciado em 1619, com a fundação de Batávia na Indonésia.
Foi também uma das maiores derrotas militares da história do exército da Holanda, que perdeu nos Guararapes 1.044 homens, e teve mais de 500 feridos, em contra partida os luso-brasileiros, devido a uma estratégia muito superior, perderam somente 47 homens, com 200 feridos. Morreram do lado invasor os generais Van der Brinken, Giesseling e outros 101 oficiais graduados. Nos Guararapes perdemos Henrique Dias, o general negro que chefiava os soldados pretos.

Apesar de um pouco longa, essa história toda ajuda a compreensão do contexto onde foram batidas as primeiras moedas do Brasil, e em que condições elas foram feitas, eram então moedas sempre emergenciais, de cerco.

Vamos agora a elas:

2.0 - AS CUNHAGENS DA GWC NO BRASIL HOLANDÊS


2.1 - EMISSÕES DE 1645:

Como foi visto acima, em 1645 o Brasil holandês estava em crise, depois da saída do Conde de Nassau no ano anterior, e também pela conjuntura econômica em relação à queda preço do açúcar. O comando passou para o Conselho dos XIX, burgueses sobretudo interessados no próprio enriquecimento, mesmo em detrimento da companhia, e sempre prontos a negociar o açúcar eles mesmos.

Segundo as pesquisas do historiador pernambucano Gonçalves de Mello, a primeira vez que se faz menção a necessidade de cunhar moeda no Brasil é num documento emitido pelo Alto Conselho em 1645. Nele se lê que: "Devido à escasses de numerário em que nos achamos, e por nada podermos obter ali das dívidas existentes, por mais que nos esforcemos nesse sentido, e sendo diariamente necessário dispor de dinheiro tanto para pagamento da milícia e salário dos contratadores de serviços quanto das obras necessárias, víveres e outras cousas mais, que não podemos escusar, resolvemos retirar da caixa de ouro chegada da Costa da Guiné no navio Zelândia, a quantia de 360 marcos, de cada nona parte de 40 marcos, para com eles cunhar dinheiro ou vendê-lo, e sendo possível, restituí-los no futuro."

Esse ouro era proveniente das terras tomadas aos portugueses em 1637 (hoje Ghana), quando da conquista do Forte de São Jorge da Mina (primeira fortaleza européia em solo africano). O general Van Koin, que conquistou o Castelo da Mina, saiu de Recife com sua grande expedição.
De lá tinha zarpado o Zelândia com escala em Recife, levando em seus porões cerca de 308 Kg de ouro puro da Guiné.

Em agosto de 1645, finalmente decide o Alto Conselho: "Como não temos meios de obter mais algum dinheiro da população, quer do que é devido à Companhia, quer de outra maneira, e, por outro lado, dos 360 marcos de ouro da caixa recentemente chegada, o qual aqui conservamos para uma emergência nas atuais dificuldades, parte já vendemos e parte ainda não encontramos comprador para ele, para obter algum dinheiro; e como este não pode se conseguir senão fazendo cunhar moedas, embora para isto não estejamos autorizados, obrigados por grande necessidade, foi resolvido mandar cunhar moedas de ouro, quadradas, de 3, 6 e 12 florins, tendo em uma face o emblema da Companhia e na outra a data do ano; e curso superior ao de venda em 25%. Ao Sr Bas (Pieter Jansen Bas), nosso colega, que entende do assunto, foi solicitado quisesse fiscalizar a cunhagem, o que o mesmo prometeu d]fazer, com a condição que lhe fossem dados poderes expressos para isso"

Pieter Jansen Bas, membro do alto conselho, tinha sido ourives no Harlen. A cunhagem começou sem mais demoras. Em setembro, seguiram para o Conselho dos XIX na Holanda um exemplar de cada moeda aqui emitida (III, VI e XII florins de ouro). Essas moedas foram cunhadas entre os meses de agosto e setembro de 1645. Numa ata de reunião do Alto Conselho nesse ano, lia-se o seguinte: "Há alguns dias que os senhores do Supremo Conselho assentaram de fazer uma nova moeda, e já se cunhou uma grande soma em ouro de 3, 6 e 12 florins, o que vem muitíssimo a propósito para contentar os militares e outras pessoas. Diz-se também que serão cunhadas moedas de prata, o tempo mostrará".

Em 10 de outubro foi baixada a instrução pela qual era nomeado o Sr. Pieter Bas como fiscal da moeda no Brasil e responsável pela cunhagem do referido dinheiro emergencial. Num determinado documento, encontrado pelo prof. Gonçalves de Mello nos arquivos da antiga GWC, Bas escreveu o seguinte: "Em primeiro lugar, como fiscal da moeda da parte da Companhia das Índias Ocidentais e por ordem dos nobres senhores do Alto e Secreto Conselho no Brasil, deverá mandar cunhar uma moeda de ouro quadrada, tendo de um lado o emblema comum da Companhia das Índias Ocidentais e do outro lado em letras a palavra "BRASIL" e o ano de 1645. Esta moeda será denominada de ducado brasileiro e terá três valores, dos quais o valor maior terá 32 peças por marco de peso troy, com tolerância de 1 e 1/2 engels e será recebido pelo valor de 12 florins, de 40 grossos flamengos o florin, tanto pela Companhia quanto por quem quer que seja, mas somente no Brasil.

O segundo valor do mesmo ducado terá, por marco de peso troy, 64 peças, com tolerância de 2 engels de peso troy, e terá curso de 6 florins, de 40 grossos flamengos o florim

O terceiro tipo do supracitado ducado terá 128 peças por marco de peso troy, com tolerância de 2 e 1/2 engels troy e terá curso e valor de 3 florins, de 40 grossos flamengos o florim.

O mencionado ducado brasileiro será feito com ouro da Guiné, das Índias Ocidentais ou de qualquer outra procedência [...] devendo ser aceito como se apresentar, já que nesse país nenhuma ferramenta, materiais e outras cousas necessárias aos ensaios podem ser obtidas [...] de modo que o ouro tal como é lançado no cadinho será transformado em lâminas e deverá ser cortado e cunhado sem quaisquer outras considerações"


O que podemos depreender com esses textos todos, é que a moeda aqui cunhada era de caráter emergencial, visava a satisfação das necessidades financeiras básicas dos holandeses no Brasil. A maioria das tropas era composta de soldados mercenários, e essa gente precisava com urgência ser paga para evitar motins e deserções, sem falar no aparato dos funcionários a serviço da GWC que há tempos também não recebiam o seu pagamento. Outro detalhe que se vê é a grande dificuldade de produzir uma cunhagem no Brasil, devido a falta de instrumentação adequada, e também pela dificuldade de se purificar e trabalhar devidamente com o ouro, daí que Bas escreve que a moeda deve ser aceita como se encontrar.

Outro detalhe interessante é que, embora a moeda obsidional tenha ganho a denominação de "Florin", os holandeses em seus documentos a tratam por "ducado", que seria a classificação mais correta, portanto.

Segundo o numismata Gastão Dessart, os pesos das obsidionais, de acordo com as medidas uadas na Holanda de então, seria o seguinte:

III Florins - De 1,90 a 1,93 gramas
VI Florins - De 3,79 a 3,86 gramas
XII Florins - 7,57 a 7,72 gramas


Vê-se que, devido a impossibilidade de precisão, e pelas condições difíceis do fabrico das peças, havia uma margem de tolerância em relação aos pesos dessas novas moedas.

Embora as novas moedas batidas em 1645 dessem um grande alívio nas carregadas finanças dos invasores, logo se acabaram, sumindo dos cofres da Companhia, visto que também eram usadas para pagar os índios aliados, imprescidíveis no auxílio geral e nos combates.

O ourives Bas, segundo os documentos da Companhia, não prestou contas de quantas moedas teria batido naquele ano, de modo que não chegaram aos nossos dias dados exatos de quantas peças foram cunhadas.

Vemos abaixo exemplares das emissões de 1645 nos seus 3 valores, essas foram as primeiras moedas batidas em solo brasileiro:


III Florins 1645 (Imagens retiradas do site "angelinicoins"):

Anexo:
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Anexo:
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VI Florins 1645 (Imagens retiradas do site "angelinicoins"):

Anexo:
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Anexo:
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Anexo:
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XII Florins 1645 (Imagens retiradas do site "angelinicoins"):

Anexo:
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Anexo:
obsidionais22_zps3ed9b05b.jpg


Anexo:
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Para as emissões de III florins de 1645, são conhecidos 1 tipo de cunho de Reverso e 2 tipos de cunho de Verso.

Para as emissões de VI florins de 1645, são conhecidos 1 tipo de cunho de Reverso e 1 tipos de cunho de Verso.

Para as emissões de XII florins de 1645, são conhecidos 2 tipo de cunho de Reverso e 1 tipos de cunho de Verso.

2.2 - AS EMISSÕES DE 1646:

Nesse ano, a situação dos holandeses não estava muito diferente da do ano anterior. Havia escassês de viveres, e a GWC não mandava recursos regularmente. Naquele ano, fizeram escala em Recife os navios Eendracht de Amsterdã e o Eendracht de Enkhuisen. Na caixa forte daqueles navios que se dirigiam de volta à Holanda, estavam cerca de 395 Kg de ouro (1604 marcos), provenientes, tal como o ouro obtido no ano anterior no navio Zelândia, da Costa da Guiné.
E assim, da mesma forma que tinham feito na primeira cunhagem de 1645, retiraram dos cofres desses navios a quatidade de 405 marcos de ouro, que seria vendido e amoedado. a 16 de agosto o Alto onselho em Recife escreve em suas notas: "Não tivemos outra solução senão recorrer ao ouro da Guiné e dele retirar, para subsidio de caixa, 405 marcos, dos quais vendemos em leilão 25 a 39 florins a onça e 25 a 40 florins e o restante guardamos com intenção de fazê-lo cunhar"

Dessa cunhagem o ourives prestou contas detalhadas, ao contrário da cunhagem do ano anterior. Os documentos da época indicam que o tesoureiro Bas recebeu do conselheiro Alrichs um total de 355 marcos para amoedação. Em 27 de agosto começaram os trabalhos de cunhagem. Os documentos que se referem a ela, levantados pelo prof. Gonçalves de Mello, são muito interessantes, descrevem em pormenores os processos de amoedação, que nas condições em que se encontravam os holandeses naquele momento, não eram nada fáceis, devido à carencia de bons instrumentos e da pouca capacidade dos cadinhos usados para fundir o metal. Vejamos: "Colocado o cadinho no fogão com 20 marcos de ouro da Guiné, ao ser fundido, o cadinho rachou desde o fundo até acima junto à borda, pelo que nenhuma onça de ouro dele restou, e através da grelha, foi cair nas cinzas; sendo recuperado e purificado, foi colocado em um novo cadinho, diante do fole, com 10 marcos de ouro, o quel também rachou, pelo que obtivemos apenas 6 marcos em lâminas em condições de de serem utilizadas, o restante estando nas cinzas. Novamente recuperado e fundidodiante do fole, esse cadinho forneceu de boa qualidade, cerca de 12 marcos em lâminas, o restante retiramos das cinzas. Este resto colocamos de novo no fogão, junto com mais ouro da Guiné, em um cadinho, pesando ao todo 32 marcos e, ao ser fundido, rachou o cadinho desde a borda até a metade do fundo, mas conseguimos obter a metade do ouro em lâminas. Assim, nestas quatro fundições despendemos penosamente o dia e obtivemos 39 e 1/2 marcos em lâminas, os restantes 50 marcos recolhemos das cinza. Os esforços e perdas que essas operações originaram bem podem ser compreendidas pelos que conhecem este serviço"
Vemos por meio desse trecho o penoso trabalho de cunhagem dessas moedas de emergência. Os cadinhos rachavam devido ao calor, pois eram inadequados para esse tipo de fundição (eram improvisados). O ouro acabava por cair nas cinzas por causa das rachaduras, e tinha que ser recuperado de lá, passar por um processo de nova purificação, para depois voltar a ser posto num cadinho novo (que também poderia rachar). Se tudo desse certo, o ouro fundido era laminado, para finalmente ser cortado e batido.

E continuam os relatos desse dificultoso trabalho, minunciosamente descrito: "Em 4 de setembro foram colocados no fogão 30 marcos de ouro da Gui´né e, sendo fundido, esvaziamos a metade em lâminas e ao restante ajuntamos 9 marcos de granalha do trabalho anterior e, fundido, foi sem acidentes derramado em lâminas. Esta granalha deu a perda de...."

Continua: "Duas onças cheias de toda a espécie de impurezas rtendo sido misturadas, o cadinho apresentosu uma rachadura na altura da borda, na extensão de u'a mão, mas não causou dano e daqueles 30 marcos de ouro houve perda de..."

Ainda mais: "Colocado no fogão em um cadinho novo 30 marcos de ouro da Guiné e fundido, surgiu uma rachadura ao meio do fundo, pelo que só conseguimos 8 marcos em lâminas, o restante recolhemo-lo das cinzas e, sendo purificado e a granalha novamente fundida, obtivemos em ouro puro em lâminas 28 marcos e 7 onças e ouve perda de..."

Os relatorios desse ano dão conta também dos instrumentos que eram utilizados nesse processo, visto que foi registrada à entrega dos mesmos e suas quantidades ao ourives responsável e aos demais membros da equipe. Esses instrumentos eram em sua maioria já usados, estavam gastos e muitos já remendados. A listagem inclui: Colheres, martelos, punções e tesouras. O mais interessante dessa listagem é a menção feita a 12 cunhos restaurados e dois cunhos novos. Os cunhos restaurados poderiam ser os cunhos usados em 1645, que estariam sendo "emendados" para a nova data de 1646. Sabe-se que em 1646 foram abertos outros cunhos novos por Jan Bruynsvelt (teria sido ele o gravador das primeiras moedas do Brasil), pois na conta por ele apresentada para ser saldada pelo Alto Conselho, consta um pagamento de 5 florins e 12 stuivers por ter aberto "um par de cunhos".

Esse ourives ainda apresentou várias outras contas para serem saldadas:

3 contas por "abrir um par de cunhos"
1 conta por um cunho de baixo de III florins
1 conta por abrir um cunho de baixo e outro de cima
1 conta por dois cunhos de VI florins
1 conta por um cunho de cima de 12 florins
1 conta por dois cunhos de III florins
1 conta por dois cunhos de XII florins
1 conta por abrir dois cunhos para XXIV florins *


Pela documentação encontrada, vemos que foram abertos pelo menos dois cunhos completas para as peças de III florins e mais um cunho de "baixo". Das moedas de 6 florins pelo menos 2 cunhos completos. Das moedas de 12 florins dois cunhos completos, e também dos cunhos de "cima".

Segundo Gastão Dessart, na descrição dessas peças, os primeiros cunhos sairam com um losango logo após a palavra "BRASIL". Após, esse losango teria sido simplificado para um mero ponto, e finalmente suprimido.

As despesas de cunhagem, segundo o pesquisador Gonsalves de Mello, incluiam ainda gastos com cadinhos, que teriam sido mais de 50, dado a sua fragilidade, martelos, ferros de cortar, tesouras, bórax, tártaro, e um fole novo, bem como com carvão para o fogão e velas para trabalhos noturnos.

Chama a atenção também a referência ao cunho do XXIV florins, uma moeda até hoje desconhecida dos colecionadores. Nunca apareceu nenhum exemplar, não se sabe se chegaram a ser cunhados.

O fiscal damoeda, Pieter Jansen Bas, recebeu os 355 marcos de ouro, e depois mais 2 onças e 4 engels. O total a ser amoedado em 1646 foi então de 87 Kg e 427 gramas. O número exato de moedas cunhadas não consta nos documentos encontrados pelo Prof. Gonsalves de Mello, mas o pesquisador holandÊs Van Loon, no século XVIII, na sua obra "história metálica dos países baixos", alegou que a cunhagem dos três valores teria chegado a 700 dúzias, ou seja: 8.400 moedas. Entretanto, esse numero é questionado pelos estudiosos do assunto, pois segundo os documentos da companhia, a quantidade de ouro que foi destinada a essa cunhagem daria para cunhar muito mais, tendo em vista os pesos.
Admitindo-se que os três valores teriam sido cunhados em quantidades iguais (uma mera hipótese), tendo em consideração a quantidade de ouro que foi destinada à amoedação, teriam sido cunhadas cerca de 18.000 moedas ao total, nos 3 valores (desprezando-se a desconhecida XXIV florins, que nunca foi encontrada).

O conselheiro Bas, fiscal da moeda, teve desentendimentos com o Conselho dos XIX na Holanda, que julgou que a soma que ele tinha se apropriado para o pagamento de seus serviços era alta demais. Assim, no ano de 1647, Bas volta à Holanda, para nunca mais retornar ao Brasil.

Anexo:
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III Florins de 1646 (imagens retiradas do site "angelinicoins")

Anexo:
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VI Florins 1646 (Imagens retiradas do site "angelinicoins")

Anexo:
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Anexo:
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Anexo:
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XII Florins 1646 (imagens retiradas do site "angelinicoins")

Anexo:
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Anexo:
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Anexo:
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Anexo:
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2.3 - CUNHAGEM DE 1647?

Surgiu num leilão no Rio de Janeiro, em 1941, um XII florins de "1647", leiloado pela firma Santos Leitão, que a avaliava em 10 contos de réis. Dizia-se então que a peça teria sido da coleção Guinle.
Teria assim havido cunhagem naquele ano? Os documentos holandeses da época não confirmam a emissão, embora as dificuldades continuassem grandes. A situação financeira naquele ano não era diferente da que se encontravam os batavos em 1646. As cartas remetidas ao conselho dos XIX indicam que havia necessidade de que o restante do ouro da Guiné ficasse em Recife, visto a situação de penúria em que se encontrava a administração, privada totalmente de rendas, visto que os ataques constantes que sofriam os holandeses os impediam de arrecadar dinheiro. Nas atas de 1647, constam retiradas de ouro da Guiné para a venda, mas não há referência nenhuma à cunhagem ou amoedação. Até mesmo porquê, o antigo encarregado da cunhagem, Sr. Pieter Jansen Bas, já tinha partido para a Holanda, embora aqui tenha ficado até a capitulação final em 1654, o ourives Hendrich Bruynsvelt.
As pesquisas dos documentos da GWC, corroboram os estudos de Kurt Prober sobre a tal emissão de 1647 que teria aparecido como peça única. Segundo os apontamentos de Prober, a moeda era falsa. O mesmo "perito" que a julgou, num primeiro momento, como peça autÊntica, colocando-a num leilão da citada firma, reconheceu seu erro em momento posterior, concluindo que teria se enganado; "...a peça, quando se punha ao sol, mudava de cor, e ficava as vezes cinzenta, roxa ou vermelha."
Pela comprovação de sua falsidade, a moeda já não teria sido exposta no 1º Congresso de Numismática do Brasil, realizado em São Paulo em 1936.
Assim, conclue-se que não existe registro de cunhagem de 1647, podendo-se dizer, com grande margem de segurança, que ela nunca tenha existido.


2.4 - AS EMISSÕES EM PRATA DE 1654.
As emissões em prata foram as da data da capitulação das tropas holandesas no Brasil. Eram uma cunhagem extremamente emergencial (Extremiteit), feita para pagar os soldados que começavam a se revoltar mais uma vez pela falta de pagamento dos soldos, bem como pelo fato de que a administração também não dispunha de dinheiro mais para nada.
No dia exato da capitulação das tropas no Recife, em 26 de janeiro de 1654, a ata de reunião do Alto e Secreto Conselho registrava:

"O coletor geral, Jacob Alrichs tendo exposto que a caixa estava totalmente desprovida de dinheiro, e que nem mesmo as dívidas mais pequenas podiam ser pagas, pôs-se em deliberação se não poderiam ser cunhadas algumas moedas em prata em obras, com as quais se atendendesse a essa emergência (extremiteit) e mais tarde fossem recolhidas. Para isso, os senhores Schoemborch e Haecxs ofereceram-se para entregar a pouca prata das baixelas de suas casas, no qual não tiveram seguidores. Entretanto, para começar, foram tomadas 23 libras de prata (11 Kg) fornecidas pelo coletor geral, a qual deverá ser entregue ao Sr. Henrik Brunsvelt, que cunhará moedas quadradas, a saber:

-Uma moeda de 8 engels (12,30 a 12,35 grms) que valerá 2 florins.
-Uma moeda de 4 engels (6,15 a 6,17 grms) que valerá 1 florim.
-Uma moeda de 2 engels (3,07 a 3,08 grms) que valerá 10 stuivers"


Ocorre que tal fato evidentemente não iria agradar as autoridades luso-brasileiras, pois em nada interessava aos mesmos que os holandeses estivessem se provendo de numerário. Assim, quando tomou ciência do que ocorria, o mestre de campo General Francisco Barreto, mandou suspender imediatamente todos os trabalhos de cunhagem, conforme consta da ata da reunião do conselho no dia 31 de janeiro de 1654:

"Foi presente um requerimento do mestre de campo General Francisco Barreto de Menezes, o qual, tendo sido informado de que o Alto e Secreto Conselho, antes da entrega da cidade, fora forçado a mandar cunhar algum dinheiro de prata, solicitava que fosse suspenso esse trabalho, tendo-se expedido ordens nesse sentido."

Assim, vemos que a cunhagem só durou 6 dias, de 26 de janeiro até 31 do mesmo mês, quando foi sustada, isso se considerarmos que houve trabalhos no dia 26 e no dia 31. Considerando o curtíssimo espaço de tempo, a escasses de metal e as condições precárias, podemos entender bem a enorme raridade dessas moedas emergenciais hoje em dia.

A Caracteristica principal dessas peças é a de que são unifaciais, ou seja; tem cunho apenas de um lado. Trazem o valor sempre em algarismos romanos, juntamente com o monograma da GWC e a data de 1654.
De acordo então com a resolução de 26 de janeiro, conforme visto acima, estava autorizada a cunhagem de 3 valores apenas, que seria as peças de:

-XXXX stuiver (correspondendo a dois florins)
-XX stuivers (correspondendo a 1 florin)
-X stuiver (correspondendo a ½ florin


Esse fato é bastante curioso, pois não estaria autorizada então a cunhagem da peça de XXX florins (muito provavelmente falsa), bem como a peça de XII stuivers (ou florins), a única moeda sem sombra de dúvidas considerada por todos como autêntica. Sobre essas duas peças, não há indicação de quanto poderiam valer em florins.


Anexo:
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A ata de 26 de janeiro de 1654, que autorizava a cunhagem de moedas de prata em 3 valores.

-2.5 - A INDUBITÁVEL XII STUIVERS (FLORINS?)


Anexo:
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( Desenho da moeda de 12 stuivers/florins em Van Loon, na sua obra Beschryving der Nederlandsche Historipenningen. Hague, 1726)

Como foi visto, o valor de 12 florins ou stuiver (seja o que for) não estava previsto em ata, mas mesmo assim a peça existe, e é a única moeda obsidional de que se tem referência confiável desde o século XVIII. Dessa forma, ante a falta de menção pelos documentos oficiais, evidentemente que o seu real valor facial não estaria definido com certeza hoje.

Segundo alguns numismatas, ela teria seu padrão definido, tal como todas as outras, em stuivers, ou seja: Seria mais uma divisionária do Florin (que era dividido em 20 stuivers).
Ocorre que o tamanho e o peso destoam totalmente do que seria de se esperar de uma moeda de prata que valesse 12 stuivers dentro daquele sistema adotado no Brasil. Assim, muitos outros numismatas defendem a tese de que ela seria na verdade uma cunhagem emergencial de XII florins, visto que, naquele momento de rendição, com a caixa zerada de ouro, a Companhia só disporia da mencionada “prata das baixelas” para fazer uma moeda confiável, e assim teria sido feito. Tal peça seria resgatada na Holanda pelo valor de XII florins em ouro, tal como as emergenciais desse metal anteriores (1645/46), cunhadas no mesmo valor. É a tese mais razoável, pessoalmente a que acho mais válida.

O Numismata e pesquisador holandês Van Loon andou em busca das moeda obsidionais brasileiras e suas referências na Holanda, no século XVIII. Achou tão somente dois exemplares das moedas de XII stuivers/florins de 1654. Das outras moedas (X, XX e XXXX stuivers, ele nada teria encontrado). Van loon desenhou cuidadosamente a peça na sua obra Beschryving der Nederlandsche Historipenningen, em 1726, conforme ilustração acima, errando apenas a perolagem, pois no desenho existem 64 pérolas, e não as 49 que se comprovaram nos exemplares autênticos.
Exemplares autênticos delas só se conhecem 5 atualmente, são raros, todos têm exatamente o mesmo cunho, peso muito aproximado, numa média de 5,00 gramas, sendo todas unifaciais.
Abaixo, dois exemplares conhecidos. Se observarmos às 3 horas, veremos que ambas têm a mesma falha na perolagem, o que comprova que todas foram batidas com apenas um único cunho:

O Numismata e pesquisador holandês Van Loon andou em busca das moeda obsidionais brasileiras e suas referências na Holanda, no século XVIII. Achou tão somente dois exemplares das moedas de XII stuivers/florins de 1654. Das outras moedas (X, XX e XXXX stuivers, ele nada teria encontrado). Van loon desenhou cuidadosamente a peça na sua obra Beschryving der Nederlandsche Historipenningen, em 1726, conforme ilustração acima, errando apenas a perolagem, pois no desenho existem 64 pérolas, e não as 49 que se comprovaram nos exemplares autênticos.
Exemplares autênticos delas só se conhecem 5 atualmente, são raros, todos têm exatamente o mesmo cunho, peso muito aproximado, numa média de 5,00 gramas, sendo todas unifaciais.
Abaixo, dois exemplares conhecidos. Se observarmos às 3 horas, veremos que ambas têm a mesma falha na perolagem, o que ajuda a comprovar que todas foram batidas com apenas um único cunho:

Anexo:
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(A moeda de 12 florins ex Julius Meili)

Anexo:
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(Leilão Jacques Schulman 1970)

2.6 - E QUANTO AOS OUTROS VALORES?


Conforme já vimos, realmente, foi autorizado pelo Alto e Secreto Conselho a emissão de 3 valores em prata: X, XX e XXXX stuivers, e teria “aparecido” atualmente, também um valor de XXX stuivers. O problema dessas emissões, que também aparecem nos catálogos brasileiros e estrangeiros, é que sobre as mesmas não existe um único registro confiável de rastreamento de um exemplar sequer, que seja anterior aos meados do séc. XIX. Não há registro de achado de nenhum desses valores, em coleções do séc. XVII ou XVIII por exemplo (tal como ocorre com as peças de ouro, com exemplares rastreados e registrados desde o séc. XVII, na coleção real de Frederick III da Dinamarca). Não há sequer um achado arqueológico ou de detectoristas que tenha localizado um exemplar delas, seja em fortes, construções antigas ou qualquer lugar.

Van Loon, em suas buscas feitas no séc. XVIII na Holanda e Europa não achou nada em prata além da moeda de XII Florins, sobre as outras, nada disse, nem teve sequer uma referência.

É como se as moedas de X, XX e XXXX stuivers tivessem sumido, e voltado a reaparecer tão somente nas coleções e leilões europeus e brasileiros no séc. XIX.
Segundo Kurt Prober, em sua obra “Obsidionais, as primeiras moedas brasileiras”, isso se deve ao simples fato de que todas elas teriam sido falsificações, surgidas depois de 1860, o que faria sentido.

No seu livro, Prober lançou a prancheta abaixo, onde faz referência às outras moedas obsidionais conhecidas, afirmando que as mesmas seriam falsificações que apareceram depois de 1860.

De cara, percebe-se que as letras "A", "G" e "M" dessa prancha são as mesmas que sempre ilustram os catálogos brasileiros, onde são classificadas como raras. Exatamente essas três peças são as que estão no catálogo de Prosper Mailet "Moedas Obsidionais de Emergência", que surgiu em 1870, em Bruxelas. Até então não havia menção àquelas peças. Ora, surgem 3 delas de uma vez só num leilão de credibilidade, e elas acabam "autenticadas"! A posição de Prober é muito racional, e é a mais provável. As peças foram leiloadas nesse mesmo ano na Bélgica, e obtiveram lances de 10.000, 10.000 e 8.000 respectivamente as peças de X, XX e XXXX stuivers! Vamos a prancha de Prober:

Anexo:
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Vamos desprezar aqui as letras "X", "XA", "Z" e "E", pois são apenas réplicas, feitas em comemorações, ou mesmo de galhofa, como é o caso da "E", que o Prober mandou fazer quinhentas em Recife, e distribuiu nos exemplares de seu livro.


Como já explanado supra, as letras "A", "G" e "M" são as peças que apareceram em Bruxelas, leilão Prosper Mailett de 1870.

Letra "B" - Catálogo Julius Meili, 1897, editado na Suiça.
Letra "C" - Ex coleção Guilherme Guinle.
Letra "D" - Revista "De Geuzen Pfenning" de Amsterdã
Letra "H" - Catálogo Julius Meili, 1897, editado na Suiça
Letra "J" - Revista "De Geuzen Pfenning" de Amsterdã
Letra "N" - Catálogo Julius Meili, 1897, editado na Suiça
Letra "P" - Coleção Museu Histórico Nacional
Letra "R" - Ex coleção Guilherme Guinle, era furada, taparam o furo.
Letra "S" - Coleção Klabin
Letra "V" - Revista "De Geuzen Pfenning" de Amsterdã

De acordo com as pesquisas de Prober, as referências mais antigas que se encontram sobre essas peças são de 1862, feitas no catálogo Minnicks Van Cleef, vendas da firma G. Theod. Bom. Também no catálogo Callenfels, anterior a 1870. Assim, essas peças foram se espalhando pelo mundo. Foram adquiridas por numismatas brasileiros famosos, como Guinle e Meili, e acabaram também em museus, como a do acervo do M. Histórico Nacional.Dessa forma, elas aos poucos teriam sido "autenticadas", adquirindo "pedigree" e valorizando cada vez mais, visto que eram "ex-Guinle", "ex-Meili", ex-fulano e etc...

Prober chamou a atenção para o fato de que essas peças diferiam algo do estilo da moeda de XII florins indiscutivelmente autêntica. As letras, os algarismos e outros detalhes são diferidos!

Embora Prober não tenha chamado atenção a um fato, ele salta aos olhos de quem analisa a prancheta, o "excesso" de cunhos diferentes para essas moedas "autênticas".
Ora, se avaliarmos apenas essas peças referidas pelo Prober, veremos que temos acima:

4 cunhos diferentes para a peça de X Stuivers!
2 cunhos diferentes para a peça de XX Stuivers!
7(!) cunhos diferentes para a peça de XXXX Stuivers, se considerarmos a posição de que a peça "J" da planilha é uma XXXX com o "X" apagado.


Ora, conforme verifica-se no histórico dessas peças de cerco, os holandeses só tiveram 5/6 dias para cunhar as moedas (laminação, pesagem, levantamento de materiais, abertura de cunhos, etc...), então como explicar que hajam "tantos" cunhos diferentes e com estilos diferentes?!

Reparemos que a moeda que é indiscutivelmente autêntica,o XII Florins, só apresenta um único cunho, ou seja: Todos os exemplares localizados são rigorosamente iguais, no sentido de procederem de uma única matriz.

Dai que se analisarmos os fatos, de repente, depois de 1850, aparecem do "nada" (pois até então não havia sequer uma única moeda dessas conhecida) toda essa variedade de cunhos?!

Conhecendo o mundo da numismática e os interesses envolvidos, não podemos deixar de concluir que as moedas de X, XX e XXXX (sem falar na evidente XXX) são quase que certamente falsificações de uma época onde brotavam "novidades" fajutas a cada grande leilão (tal como as moedas gregas e romanas que eram por esse período forjadas por grandes falsários, verdadeiros mestres de gravação).

Como poderia ser resolvida essa questão hoje? Simples: Através da análise comparativa da prata que foi utilizada nas peças autênticas de XII florins com a que foi utilizada nas peças acima.

Atualmente, exames microscopiais permitem saber a procedência (bem como grau de cristalização) de determinada prata. Existem já vários trabalhos nesse sentido, como um que certa vez vi, onde rastreiam a prata das minas de Potosi na Bolívia, em determinadas cunhagens.

E o destino das originais? Como vimos, haviam 11 quilos de prata para que fossem batidas essas moedas. Ocorre que o tempo foi muito curto, e com quase certeza não deve ter sido amoedado todo esse metal.

Certeza só se tem de que a XII florins 1654 foi batida. Os outros valores, embora autorizados, talvez nunca tenham sido feitos, tal como a moeda de XXIV florins de ouro (1646?) da qual se achou um documento de abertura de cunho, mas que nunca foi encontrado um exemplar.

A quantidade que chegou a ser feita e utilizada no pagamento das tropas, provavelmente foi resgatada em Amsterdã por moeda sonante holandesa, e as emergenciais então destruídas, para que não fossem apresentadas novamente. Se algum outro valor foi cunhado, deve ter sido lá destruído.

As peças que porventura ficaram no Brasil, podem ter acabado nos cadinhos de ourives, por causa do metal, utilizado muito na época para adorno de santos nas igrejas.

Talvez nunca saibamos o que realmente aconteceu a esses demais exemplares, ou se realmente existiram. O indiscutível é a extrema raridade da de XII florins de 1654, e de sua autenticidade comprovada. O resto, até melhores provas, é especulação e risco.


3.0 - BOTIJA DE RIO FORMOSO - UM GRANDE GOLPE!


Era uma vez... Durante as obras da construção de uma rodovia Federal, a BR 101, que liga à capital à zona da Mata e as praias da área Sul, em 1967, o motorista Manoel Crispin dirigia na ocasião um caminhão caçamba, e esperava que o tratorista "Raimundo" o enchesse, poder transportar o barro. Em certo momento, o tal "Raimundo" teria gritado: "Crispin, parece que a escavadeira quebrou alguma coisa, veja o que é..."
O Crispin então teria visto "um botijão de barro quebrado", contendo vários "quadradinhos de cor preta (prata patinada).

A partir de então, tomou vulto a história da "botija do Rio Formoso", cidade localizada no litoral de Pernambuco, onde se deu esse "achado".
Os relatos acima são baseados no livro do engenheiro Rubens Bezerra, que defendia a autenticidade dessas moedas, mas que, em momento posterior, diante de críticas e exames mais apurados, veio a retratar-se de sua tese, lançando um outro livro, negando agora a veracidade do "achado".

Continuando os relatos do primeiro livro do Sr. Rubens Bezerra, temos que " o Sr. Crispin teria dividido o achado com o tratorista Raimundo, tendo embrulhado sua parte num lenço, e levado para casa.

O motorista relatou que teria achado "copos de ouro, medalhas (que teriam sido os XXIV florins"), placas de ouro, barras de prata, e diversas moedas de ouro, prata e cobre".
Prober levantou a suspeita em relação ao relato, de como teria cabido tudo num lenço. O Sr. Rubens achou que era natural que, a princípio, o motorista omitisse a quantidade de seu achado, e não estranhou a narrativa.

O fato verdadeiro é que, considerando todo o material que foi aparecendo no mercado, milhares de moedas, além de barras de prata pesadas (algumas com 800 gramas) e copos, como tudo caberia num botijão apenas?

Esse material ganhou a praça, e alguns exemplares foram levado ao Rio de Janeiro no ano de 1973, para a avaliação do Museu Histórico Nacional.

Recebeu esse material a Sra. Dulce Ludolf, responsável pela divisão de numismática, que relatou ter recebido para análise 5 moedas quadradas a saber; um XII florins de ouro 1646, III florins em ouro 1645, XII soldos (florins) em prata 1654, XXXX stuivers em prata 1654. A Sra. Dulce comparou os exemplares com os florins de ouro constantes do acervo do museu, e achou que os mesmos "tinham elementos suficientes para serem considerados autênticos", por um exame meramente visual.
Esse documento ajudou a "esquentar" as moedas, e sua venda cresceu, fazendo com que mais exemplares aparecessem no mercado, tudo "guardado" pelo tal Crispim.

Uma coisa fica perceptível nessa relação acima: Não foi aí apresentada a tal moeda de XXIV florins. Esse dado terá valor para conclusões mais adiante.

De história em história, essas moedas e barras tiveram preços inflacionados, chegaram a ser vendidas por pequenas fortunas em certas ocasiões, foram adquiridas por bancos sérios, e até para leilões no exterior as levaram! E curioso era que, da "pequena" quantidade de moedas originariamente achada, foram se "multiplicando exemplares", de início apenas os tipos mais "clássicos", mas depois de 1976, quando foi lançada a pesquisa séria do Prof. Gonçalves de Mello, baseada em documentos colhidos na Holanda, começaram a aparecer as coisas mais delirantes.

Surgiram nessa "febre" de obsidionais, "provas de cunho", "barras de corte", "Moedas sem datas", com "datas invertidas", "datas erradas", "cunhagens duplas", "cunhagens em bronze" e todo o tipo de arte que se possa imaginar! Acabaram aparecendo cerca de 2.000 moedas (um cálculo feito à época) e barras de prata, ouro e cobre! E essas coisas eram absorvidas pelo mercado! Tudo "autenticado" pelo parecer dado no Rio de Janeiro, bem como pelos livros escritos que defendiam a tese da autenticidade das peças, embalados pelas "histórias" dos "achadores" da tal botija.

Primeiro aprasentarei aqui as fotos e imagens que consegui desse "material", para depois passar a análise crítica de tudo, explicando o porque disso ser falso.

3.1 - AS MOEDAS:

Anexo:
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"X stuiver" 1654, prata (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"X stuiver" 1654, prata (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"X stuiver" 1654, cobre (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"XX stuivers de cobre" 1654 (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"XX stuivers" de prata, 1654 (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
obsidionais45_zps799a2d45.jpg

"XXX stuivers" de prata, 1654 (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"XXXX stuivers" de prata, 1654 (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
obsidionais47_zpsb96a95f5.jpg

"XII florins" de prata, 1654 (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"III florins" de ouro 1646 (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"VI florins" de ouro 1645 (imagem retirada da internet) - FALSO

Acima temos os tipos que mais aparecem dessas moedas, são os mais comuns, os valores que apareceram em maior número. De pronto, se fizermos uma comparação com as moedas autênticas (falo das moedas de ouro autênticas, e da XII florins de prata autêntica) veremos que elas têm um estilo diferente das que estão documentadas como moedas boas, são muito mais toscas, mas vamos continuar as descrições desse material, para depois fazer uma análise crítica de todo o conjunto:

3.2 - AS "RARIDADES": XXIV FLORINS EM OURO!

Anexo:
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"XII florins" de ouro, 1647 com o "7" recunhado sobre "6"!! - (imagem retirada da internet) - FALSO

Anexo:
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"XXIV florins" de ouro 1646 - (imagem retirada da internet) - FALSO

3.3 - AS BARRAS:

Anexo:
obsidionais53_zpsbcc66d34.jpg

Barra de prata com varios carimbos: "GWC 1654 - C.I.O.", "W.I.C. - D.H. - P.J.B" - FALSO

Anexo:
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Barra de prata carimbada: "W.I.C - D.H" - "P.J.B. - G.W.C." e "ANNO BRASIL 1645" - FALSO

Existem uma grande variedade desses carimbos, alguns são tão esdrúxulos que ajudam a comprovar a falsidade desse material, mas vamos continuar com os exemplos:

3.4 - AS "VARIEDADES" E "ERROS"


Coma aceitação pelo mercado das moedas que primeiro apareceram, foram "miraculosamente" surgindo as coisas mais estranhas, sob a alegação de que esse material teria sido "escondido" pelo dono da botija, o tal Sr. Crispim. Assim, "Vieram à luz" coisas como erros de cunho, provas de cunho, datas invertidas e uma parafernália de peças, das quais algumas vão aqui ilustradas (essas fotos foram extraídas do livro: "As Oficinas Monetárias e as Primeiras Casas da Moeda no Brasil" do Prof. Salazar.):

Anexo:
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Moedas de stuivers sem as datas. No lugar das datas, existem pequenos quadrados. O prof. Salazar, que acreditava na veracidade desse material (em evidente erro) acreditava que isso seriam provas, ou emissões anteriores, que não poderiam ser datadas ja que a autorização pelo Alto e Secreto Conselho só se deu em 1654.

Anexo:
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Imagem de moedas que foram recunhadas. As bases eram de peças com quadradinhos no lugar das datas, que foram batidas novamente com cunhos de moedas datadas de 1654. O Prof. Salazar achava que isso era para legalizar uma emissão anterior com a data de 1654, pois só aí a autorização de cunhagem foi dada.
Essa tese é equivocada e frágil, pois além de nada haver documentado nesse sentido, o Alto e Secreto Conselho sediado em Recife é que ordenava as emissões, independente da anuência do Conselho dos XIX de Amsterdã. Assim foi feito em relação aos florins de ouro autênticos de 1645/46, que foram cunhados a revelia do conselho de Amsterdã, e com a moeda de XII florins de prata de 1654 autêntica. Então, por que essas moedas cunhadas em datas anteriores teriam que ter sido escondidas?

Anexo:
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Barra de prata com todos os valores de stuivers e um XII florins. O prof. Salazar achava que isso seria uma barra de corte. Ora, como uma barra assim iria garantir a pesagem diferenciada das peças?

Anexo:
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Moedas de prata com as datas invertidas. Mais uma "variedade" que apareceu na "botija".

2.5 - A FALSIDADE COMPROVADA DESSAS PEÇAS.

Em Recife essas moedas encontraram ferrenhos defensores. Foram escritos 3 ou 4 livros que defendiam a sua autenticidade. O prof. Salazar foi um deles, na sua obra ""As Oficinas Monetárias e as Primeiras Casas da Moeda no Brasil". Um engenheiro recifense, sr Rubens Bezerra, também, a princípio, defendia essa tese, e escreveu uma obra que explicava como essas peças foram cunhadas, sobra o processo que teria sido utilizado, sobre o material que foi encontrado junto (copos, barras, etc...).
Mas a coisa quando mais aprofundadamente analisada começou a ceder. Kurt Prober fez um estudo sério, e juntamente com outros, comprovou a falsificação desse material com brilhantes observações.
Vamos destrinchar aqui algo seobre o que Prober descobriu, e também algo que pude descobrir estudando esse material e o material levantado pelo prof. Gonçalves de Mello (em seu excelente estudo para a Revista do Ist. Histórico e Geográfico de Pernambuco):

- Entre as moedas "encontradas", não houve uma sequer, entre os florins de ouro e o XII florins de 1654, que tivesse o mesmo cunho de uma moeda dessas tida como indiscutivelmente autêntica, como as do museu real da Dinamarca, onde se encontram alguns exemplares desde o séc. XVII. Essa observação foi feita por Prober, de maneira até sarcástica, pois disse que queriam transformar o que era conhecido como autêntico em falso, e o que era falso em autêntico. Prober tem toda razão. Num achado desse tamanho, muito natural que se encontrassem pelo menos alguns dos cunhos tidos como autênticos entre as peças.

- As moedas são toscas demais, os estilos não batem com as moedas autênticas. Observação de Prober. Corretíssimo. Olhando as peças autênticas, é impossível não perceber um estilo mais refinado. As de Rio Formoso são grosseiras, algumas mesmo verdadeiras aberrações. Os defensores das moedas diziam que isso era devido à pressa e ausência de pessoal qualificado, mas a análise global do assunto vem a desmentir isso.

- Existe uma variedade enorme de cunhos nas moedas da botija de Rio Formoso. Prober chama atenção para esse fato. O prof. Salazar dizia que isso era comprovação de autenticidade, pois um falsário faz um cunho apenas, em seu "modus operandi", e sai batendo várias peças com ele. Isso não pode ser tomado como verdadeiro nesse caso. Conforme a documentação levantada nos arquivos da companhia pelo prof. Gonçalves de Mello, os holandeses tiveram apenas 05/06 dias para preparar todo o processo de cunhagem das moedas em 1654, data da rendição, é só das moedas de prata de XII florins, o prof. Salazar chegou a contabilizar 21 cunhos diferentes! Prober em sua obra "Obsidionais, as primeiras moedas do Brasil", deu-se ao trabalho de catalogar várias e várias "crispetas", como ele chamava essas moedas, e descobriu entre os valores de X, XX, XXX e XXXX stuivers, dezenas e dezenas de cunhos! Isso sem falar nas variedades que nos vimos acima, nas barras datadas de 1654, e etc...
Ora, como é que os holandeses, num estado precário de rendição, tendo apenas 5/6 dias para preparar uma cunhagem emergencial, com carências de todo o tipo, poderiam ter aberto dezenas e dezenas de cunhos diferentes, cunhado barras de prata para a venda (já rendidos, em 1654! como venderiam as barras?) e se dado ao luxo de cometer tantos erros de cunhagem e "provas"? Evidentemente que algo aí não soaria muito certo ou coerente...

- As barras não constam em nenhum documento encontrado pelo prof. Gonçalves de Mello nos arquivos da GWC. Além disso, trazem carimbos que não conferem com a realidade. Prober estudou os carimbos dessas barras, e descobriu abreviações que não poderiam de maneira nenhuma estar lá! Existem no mínimo 18 tipos e variantes de barras.
Vejamos algumas das marcas mais suspeitas:
C.I.O. (vide foto). Segundo o engenheiro Rubens Bezerra e o prof. Salazar (defensores do material), isso significaria "Companhia das Índias Ocidentais. Prober rebate isso, com toda razão. Evidentemente seria muito improvável que os batavos usassem o português em suas cunhagens, ainda mais em abreviações!
D.H. Abreviação que não encontrou explicação plausível. Prober entendeu que o falsário idiotamente quis se referir a "Domínio Holandês", o que seria simplesmente esdrúxulo!
P.J.B. Seriam as iniciais do ourives Pieter Jansen Baas. Prober não fez menção, mas essas iniciais aparecem também em barras cunhadas em 1654. Ora, segundo a documentação levantada nos arquivos da GWC, Pieter Jansen foi embora do Brasil, para nunca mais retornar, em 1647, então, como é que se pode explicar o fato de suas iniciais aparecerem também em barras de prata datadas de 1654?!
O.W.I.C. Essas iniciais não poderiam existir! Segundo Rubens Bezerra e o Prof. Salazar, elas significariam "OUDE WEST INDISCHE COMPAGNIE", ou Velha companhia das índias ocidentais. Ocorre que essa denominação "Oude" foi "Criada" pelo prof. Gonçalves de Mello para, em sua obra escrita para a revista do I.H.G de Pernambuco, definir a antiga (Olde) e falida em 1674 Companhia das Índias Ocidentais, diferenciando-a da companhia que surgiu de 1674 até 1717. Essa abreviação surgiu nos estudos publicados em 1973 pelo prof. Gonçalves de Mello, e o falsário a colocou numa barra datada de 1645!! O próprio Gonçalves de Mello falou para Prober que a abreviatura tinha sido criada por ele, para facilitar seus estudos!!, e lá está ela nas barras, o falsário se "enrolou" nas informações que colheu na obra do I.H.G de Pernambuco!
- A lei das moedas de ouro é bem inferior à lei das moedas da "botija". Conforme os estudos do Prof. Gonçalves de Mello, as moedas de ouro eram feitas com ouro procedente da Guiné. As dificuldades na cunhagem e purificação do metal naquelas circunstâncias eram evidentes, e as peças comprovadamente autênticas, quando tocadas, revelam uma pureza entre 22K e 24 K, mas nenhuma delas, segundo o Kurt Prober, apresentou permilagem abaixo dos 0,900 milésimas. Já o ouro das moedas da botija gira em torno dos 14K e 16K (0,500 e 0,600), o que faz muito sentido, pois o falsário fez o metal "render" o máximo possível nas suas cunhagens.
- Existe na composição das moedas de ouro da "botija" elementos totalmente estranhos, que não poderiam estar numa cunhagem autêntica naquela época e circunstância. O ouro usado na cunhagem autêntica era puro, das minas da Guiné, tal como se comprovou nas moedas originais comprovadas. Entretanto, nas moedas falsas de "Rio Formoso", foi feita uma análise química em 1984, e foi achada a presença de metais e substências estranhas, tais como traços de alumínio, cromo, manganês, níquel e oxigênio (usado em maçaricos!!). A presença mais abundante era a de ferro. Evidentemente que esse material não poderia estar no ouro da Guiné, e como justificar a presença de cromo, níquel e oxigênio nesse ouro?! O ferro poderia até ter sido usado como liga, vá lá, mas níquel?! cromo?!
- As moedas de prata têm liga entre 600/700 milésimas, muito inferior as peças autênticas!
- As moedas de XXIV Florins só aparecem depois de 1973. A questão é que, só após o lançamento dos estudos sérios do prof. Gonçalves de Mello sobre os documentos holandeses, onde se achou um recibo de um cunho da desconhecida XXIV florins, é que apareceram as moedas de "XXIV" de "Rio Formoso". Ora, quando foram levadas para o Rio de Janeiro as moedas primeiramente "achadas" na botija na década de 60, não constava nenhum exemplar de XXIV florins, apenas os valores de ouro "normais". Isso leva a entender que naquela época não havia o XXIV "na praça", que só veio aparecer depois de 1973!

3.6 - OUTRAS "CURIOSIDADES".


Paralelamente às moedas e barras "holandesas", surgia no mercado àquela época, uma série de achados muito "Interessantes", achados estes que revelavam traços do mesmo estilo das peças de "Rio Formoso", tais como "copos de ouro", pratos, e outras barras e carimbo gritantemente falsos!

Vamos a dois exemplos dessas "preciosidades":

Anexo:
obsidionais59_zpse5def828.jpg

(Imagem de leilão de internet)

Acima um carimbo simplesmente grotesco! Um 960 réis totalmente fictício, de 1809, batido numa moeda do Império do Brasil!! Isso teve a intenção de passar por "raridade desconhecida", entretanto, é evidente a falsificação grosseira. Agora reparem o crucial: Esse carimbo fajuto tem o mesmo estilo de gravação que as moedas de florins do "Rio Formoso"!!

Outro exemplo:

Anexo:
obsidionais60_zps353c17a0.jpg

(Imagem do livro de Kurt Prober)

Essa "raridade" segundo alguns, também estava na "botija", é a placa das "3.000 braças". É prata, os carimbos são cunhados encima de placa martelada. A 1ª observação é a discrepância das datas, como uma placa de 1676 estaria numa botija enterrada pelos holandeses em 1654?
Agora é importante reparar o estilo: Também é o mesmo das moedas e barras "holandesas". Essa peça particularmente tive a oportunidade de ver pessoalmente uns 3 anos atrás, e pude observar como é idêntica em tudo (pátina e estilo) aos outros "achados".

Temos então que analisar esse material como um todo: Não há possibilidade de haver parte falso ou parte verdadeiro, cada peça é parte integrante de um todo, e se vemos que muita coisa é comprovadamente falso, todo o conjunto é fajuto, sem exceção!

Uns anos atrás, pude ver também um 960 reis 1809 falso, em cobre, nesse mesmo estilo grotesco! Soube de pessoas que viram um carimbo luso-brasileiro batido num 8 reales espanhol, que tinha o mesmo estilo das obsidionais do "Rio Formoso", bem como também teria surgido naquela época uma moeda portuguesa de ouro de D. António, também nesse estilo!

Minha experiência pessoal com essas peças não foi nada boa. Uns anos atrás, eu era um numismata ainda inexperiente (nem o fórum conhecia), e fui levado nessas conversas, também pelos livros errados que me venderam, e acabei adquirindo séries completas dessas moedas "obsidionais", em ouro e prata. Com o tempo e observação, bem como com a literatura correta e com a experiência que comecei a adquirir, não demorou para que eu fosse descortinando a verdade, até achar a obra do Prober sobre o assunto, que veio a confirmar as suspeitas que andava tendo. Cheguei mesmo a negociar algumas dessas peças, mas hoje, com a experiência que tenho, digo sem medo de errar: TUDO É FALSO. Não tenho mais dessas moedas, que repassei a quem se dispunha a negociar com isso, e também não adquiro nem um exemplar.

Essas moedas são hoje curiosidades, elas são uma lembrança de um grande golpe que foi aplicado na numismática brasileira (foram adquiridas por museus de credibilidade no Brasil e no mundo, e estão até hoje expostas no museu do BC em Recife!!). Muita gente adquire como mera curiosidade, outros adquirem por não poderem possuir as verdadeiras, outros para tapar buracos na coleção, mas lembrem-se: Não se deve comprar isso aí esperando um bom negócio! Paga-se o que vale como uma boa curiosidade, nada mais!

4.0 - OUTRAS FALSIFICAÇÕES


A botija de Rio Formoso foi um grande golpe, mas evidentemente não foi o único. Como vimos, há a grande possibilidade de muita coisa do que se considera boa em relação às cunhagens de prata já catalogadas serem falsificações pós 1870.

Também existem no mercado internacional moedas obsidionais brasileiras evidentemente falsas, que as vezes são vendidas a altos preços!

Abaixo algumas falsificações que nada tem a ver com a famigerada botija, e que devem ter surgido após 1850:

Anexo:
obsidionais61_zps8b53229e.jpg

(Imagem retirada da internet)

Peça vendida pela firma Gorny & Mosch, pela pechincha de 650 euros. Tem pouco mais de 24 gramas em cobre. Seria uma "prova"?! Evidentemente falso! Não condiz com o estilo das moedas de XII florins encontradas por Van Loon e documentadas.

Anexo:
obsidionais62_zps73f2ee78.jpg

(Imagem retirada da internet)

Essa é bem semelhante a que foi vendida pela firma Gorny & Mosch (mesmo cunho, mas sem as estrelas carimbadas). Topei com ela durante uma pesquisa em leilões, estava num leilão norueguês, sendo vendida como autêntica! Evidentemente falsa!

5.0 - OUTRAS OBSIDIONAIS HOLANDESAS AUTÊNTICAS.

O termo "Obsidional" é usado para definir moeda de cerco, aquela emitida em urgência de caráter militar, "Extremiteit".
Durante as guerras das províncias holandesas contra a coroa espanhola, foram emitidas moedas obsidionais, em situações emergenciais devido a cerco de tropas inimigas. Dois exemplos:

Anexo:
obsidionais63_zps2f33e0d4.jpg


Essa peça é um belo exemplo de obsidional holandesa, peça de prata uniface e quadrada, tal como as brasileiras de 1654.

Anexo:
obsidionais64_zps55e7a571.jpg


Outra obsidional, essa de madeira (cartão), que reflete bem o estado de emergência.


E aqui, a única moeda cunhada por MAURÍCIO DE NASSAU, já na Alemanha: viewtopic.php?f=61&t=119707


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MensagemEnviado: segunda mai 18, 2009 9:16 am 
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Reinado D.Manuel II

Registado: quinta jun 14, 2007 9:06 am
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Localização: Pomerode/Brasil
Parabens
Mais uma vez um ótimo trabalho.


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MensagemEnviado: segunda mai 18, 2009 9:49 am 
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Reinado D.Filipe III
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Registado: quarta abr 08, 2009 2:03 pm
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Localização: Portugal - Gouveia
Trabalho fantástico!
Miguel Costa

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Os grandes homens não nasceram na grandeza, engrandeceram.


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MensagemEnviado: segunda mai 18, 2009 10:12 am 
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Reinado D.Afonso Henriques

Registado: domingo jun 22, 2008 2:31 pm
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Localização: Lisboa
Belo trabalho, como se diz em numismática: soberbo!
Obrigado Fabiano! :thumbs:

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Horácio Ferreira


La cuna del hombre la mecen con cuentos

DIGA NÃO ÀS FALSIFICAÇÕES! DO NOT COOPERATE WITH JUNK TRADERS!


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Reinado D.Fernando

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Mensagens: 1376
Localização: Braga - Portugal
:clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3:

Flor-de-cunho! Fabiano, tens que publicar isto em alguma revista!!!

Parabéns, está muito bom mesmo. Fico feliz e não estarmos apenas limitados em ficar dando preço de moedas a pessoas que vêm e somem, mas que aqui se produz informação de qualidade!

:clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3:

_________________
Ajudem-me a recuperar minhas moedas furtadas por algum funcionário dos vergonhosos e mal administrados Correios do Brasil. Agradeço!

Link para as moedas:

viewtopic.php?f=51&t=42341


Alberto Paashaus


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MensagemEnviado: segunda mai 18, 2009 8:46 pm 
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Reinado D.Afonso Henriques
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Registado: quarta dez 17, 2008 11:21 pm
Mensagens: 6076
Localização: Ponte-Guimarães
Exelente trabalho
Obrigado pela partilha

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José Pereira


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Reinado D.João IV
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Registado: domingo set 07, 2008 3:04 pm
Mensagens: 737
Localização: Brasil, Minas Gerais, Poços de Caldas
Excelente trabalho de pesquisa :clap3:

_________________
William Rayel
http://numismatica.4shared.com :read:


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Reinado D.Carlos
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Registado: sábado out 21, 2006 2:12 am
Mensagens: 115
Localização: V.N.Famalicão/Viana do Castelo
Excelente trabalho fabiano. gostei muito de ler e aprender
:clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3:

_________________
Cumprimentos Daniel Silva


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MensagemEnviado: quarta mai 20, 2009 8:39 pm 
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Reinado D.Maria II
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Registado: terça mai 20, 2008 1:42 pm
Mensagens: 299
Localização: Carrasqueira / Azeitão
Obrigado, após esta leitura considero-me uma pessoa mais rica.

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Um abraço
Gaspar Pato
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http://www.pt-leiloes.com/Numispato,nam ... er_id,shop


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