Sistema monetário romano e designação de cada peça

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MCarvalho
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Sistema monetário romano e designação de cada peça

Mensagempor MCarvalho » quarta mar 15, 2006 6:16 pm

Sistema Romano
Este tópico é uma recuperação de um mais antigo que apresentei no velho fórum de numismática há uns anitos.


A ideia continua a ser a mesma: simplificar e esquematizar de forma ilustrada o lugar e a designação que cada moeda imperial romana ocupou no sistema monetário do seu tempo.

Em termos simples, o Império Romano foi uma estrutura histórica que se alongou durante cerca de cinco séculos: podemos espartilhar o império entre os anos 27 a.C. (data da atribuição do título de Augusto a Octávio) até 476 d.C. (data da deposição de Rómulo Augusto por Odoarco e consequente entrega das insígnias imperiais ao Império Bizantino).

Como todos os tempos longos da história, esta estrutura foi percorrida por várias conjunturas que implicaram mudanças mais ou menos profundas na organização política, na sociedade e na economia.

Dentro das alterações políticas e económicas, temos as reformas do sistema monetário.

Se excluirmos os ajustes ponderais de Nero (por volta do ano 64 d.C.), a introdução do antoniniano, em 214/15, por Caracala e as reformas dos irmãos Constâncio II e Constante (c. de 348 d.C.), mais a reforma nas pratas, em 355, podemos definir as reformas imperiais do sistema monetário em três grandes momentos:

1 - Reforma de Augusto
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2 - Reforma de Diocleciano (c. 294 d.C)
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3 - Reforma de Constantino I (c. 313 d.C.)
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Cada uma destas reformas foram inseridas em contextos em que os sistemas anteriores já se encontravam em declínio completo. Não obstante, algumas referências continuaram a ser usadas, quanto mais não fosse como moeda de conta.

É o caso do denário, que continua a ser citado por documentação do tempo de Diocleciano, nomeadamente no seu édito sobre os preços (de 301 d.C.), em que os preços dos bens são-nos apresentados em denários:

http://www.fh-augsburg.de/~harsch/Chron ... _ep_i.html

No entanto, isto não significa que Diocleciano tenha cunhado ou mandado cunhar denários, nem em prata, nem em bronze, como por vezes é referido.

O denário no final do século IV era uma moeda extinta, as referências a denários de bronze dirão possivelmente respeito a fólis reduzidos, cunhados já depois do ano 300, contudo, são enquadrados no mesmo momento cronológico dos fólis grandes, de 294. Essa leitura, não tem, contudo, em conta as datações precisas elaboradas por Sutherland e Carson no vol. VI do Roman Imperial Coins (ab. RIC).

Se atendermos a essas datações, percebemos que os bronzes mais pequenos da tetrarquia (exceptuando os radiados) são simples deflações dos grandes fólis. Leitura esta que encaixa muito bem com a conjuntura de caos económico que se sucedeu à promulgação do célebre édito de 301.

Em termos comparativos, podemos usar o exemplo do Escudo português cunhado entre 1969 e 79 e colocá-lo lado a lado com o mesmo Escudo cunhado entre 1981 e 86. Mesmo que os critérios da economia moderna sejam diferentes, a redução física da moeda é evidente, sem que com isso possamos falar de moedas distintas, é o mesmo Escudo, o mesmo padrão, contudo, num espaço de tempo bem curto, perdeu valor e tamanho.

Outra situação semelhante (embora bem mais complicada de documentar) é o caso da introdução das maiorinas em 348 que nos surgem muitas vezes misturadas com os centenionais.

A única referência à maiorina e aos centenionais é muito tardia, e está presente num édito do Códice de Teodósio, ver CTh.9.23.1.3
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Em todo o caso, a documentação parece sugerir uma distinção entre os centenionais e as maiorinas.

E agora, em termos de brincadeira (e para espicaçar o espírito de investigador), vou fazer um concurso:

Os dois primeiros foristas a responderem a estas questões, receberão uma prenda:

- Quanto custava uma porção de cerveja no ano 301? Quero os valores em follis e não em denários.

- O mesmo exercício para o valor de um dia de trabalho de um camponês (operário rústico).

As ferramentas para resolver as questões estão no texto e nos links que disponibilizei.
Boa sorte!
MCarvalho

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Mensagempor jcunha » quarta mar 15, 2006 6:21 pm

Bem, devemos ter aqui mais um inamovível... parabéns!!
Quanto ás perguntas deixo-as para quem sabe latim.
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Mensagempor jcunha » quarta mar 15, 2006 6:28 pm

parece-me do que li, mesmo sem saber latim que a cerveja custava quatro (ou catorze ou quarenta) qualquer coisa não sei se follis ou denários. No caso apostava em quarenta follis. (se calhar estou a dizer uma grande asneira mas tenho que sair e não tenho tempo para investigar mais...). :oops: :biggthumpup:
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Mensagempor Leote Mendes » quarta mar 15, 2006 6:54 pm

Eu também vou mandar dois tiros à sorte:
-O operário ganhava 25 follis por dia;
-A cerveja custava 4 follis.
Leote Mendes
Lista de moedas repetidas não actualizada.
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Mensagempor PJGS » quarta mar 15, 2006 7:03 pm

Operário: 2 follis
cerveja: 0.32 follis

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Mensagempor PJGS » quarta mar 15, 2006 7:12 pm

MCarvalho Escreveu:O PJGS fez o cálculo correcto. Apenas faltou uma pequena variante: os valores são para o ano de 301 ;)


Pois, esqueci referir q depois de 301 um Follis passou a valer 25 Denários.

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Mensagempor doliveirarod » quarta mar 15, 2006 7:22 pm

Concordo que o texto deve ser inamovível, tem um caráter didático bem interessante.
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Mensagempor Paraq » quarta mar 15, 2006 7:29 pm

Será?

Operário: 2,5 follis
Cerveja: 0,38 follis eheheheh

isto foi sem a tradução latim hein!!? Não gozem
Última edição por Paraq em quarta mar 15, 2006 7:45 pm, editado 1 vez no total.
Avelino Nascimento
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Mensagempor Paraq » quarta mar 15, 2006 7:30 pm

Quanto ao texto .... Fantastico, belo trabalho!
Obrigado amigo Mário!
Avelino Nascimento

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Mensagempor doliveirarod » quarta mar 15, 2006 7:36 pm

Agora, só uma observação: O texto não fala em centenionallis, e sim só nas maiorinas, tratando como maiorina mesmo as moedas tidas tradicionalmente como centenional, como a da série "fel temp reparatio" Imperador derrubando bárbaro do cavalo).

Isso comprova a tese de que as denominações são incertas a respeito dessas peças, segundo alguns autores, os próprios documentos da época são confusos no que diz respeito a denominação Maiorina/centenional. Aparentemente são a mesma coisa, não haveria uma diferenciação de ordem prática nessas moedas, de modo que a meu ver maiorina e centenionallis significam exactamente a mesma coisa.

A meia maiorina do texto (ou meio centenional) é o nummus, como tbm são conhecidos esses pequeninos cobres de 20 mm. No caso da série "gloria exercitus", quando existem dois estandartes entre os soldados trata-se de um centenionalis(ou maiorina), qdo existe apenas 1 estandarte, é o nummus. Nessa série em particular a identificação é imediata.

Tbm ressalto o caso dos "centenionallis" prateados. Na verdade para muitos são mesmo follis (esses sempre levaram banho de prata a 5%), só que reduzidos, devido à inflação.
Pessoalmente apoio a tese de que se tratam de follis reduzidos, e não dos 1ºs centenionallis. Os centenionallis seriam as moedas que já não apresentavam nenhum prateado. Eis o divisor de águas na minha opinião: Enquanto tinham o prateado eram follis (reduzidos). Com a extinção do prateado, surge o centenionallis (ou maiorina).
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