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 Assunto da Mensagem: Proto-Moedas da Antiguidade
MensagemEnviado: quarta dez 26, 2012 1:12 am 
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Reinado D.Sancho I
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Eis aqui uma compilação de alguns artigos de proto-moedas ou paleomoedas, estudos sobre objetos que serviram o homem como moedas antes de aparecerem as moedas metálicas propriamente ditas:

1 - Sementes de Cacau: viewtopic.php?f=59&t=86150

Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao território que hoje é o México no século XVI, os grãos de cacau faziam as vezes de moeda. Os cronistas notaram com assombro; o dinheiro crescia em árvores.

Naquela época existiam três grandes regiões produtoras de cacau: a de Chontalpa e Soconusco (México) e a região do Rio Ulua (Honduras). A produção e a circulação de cacau, assim como seu consumo, eram fortemente controladas por nobres e mercadores do vale do México e de Yucatã. Os baixos rendimentos do cultivo e as dificuldades do transporte aumentavam o custo social do cacau e, em consequência, seu preço.

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*Cobiçado por se escasso, mas suficientemente abundante para não faltar,
o cacau, possuidor dos atributos do deus Quetzalcóatl, era a moeda prestigiosa
da América Pré-Colombiana


Como outras moedas primitivas, o cacau não cumpria todas as funções próprias a um instrumento monetário. Assim, apesar de ser o principal meio de intercâmbio, tanto os astecas como os maias utilizavam como medida de valor a manta (quachtli), peça de algodão que representava uma quantidade determinada de força de trabalho, isto é, de valor. Em Yucatã, a manta equivalia a 450 horas de trabalho. Apesar de não conhecermos o equivalente em horas de trabalho da manta do tributo asteca, sabemos, por outro lado, que seu valor em cacau era de 100 grãos, aproximadamente, segundo as flutuações da produção.

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*Imagens do Codex Borbonicus*

Pode-se afirmar, então, que o valor (em força de trabalho) da maioria dos bens que circulava podia ser expresso em cacau, enquanto o preço deste só podia ser fixado em mantas, cujo valor era invariável. A impossibilidade de fragmentar a manta e a consequente necessidade de um meio circulante dariam origem ao universo "monetário" do cacau, determinando a conversão recíproca entre o cacau e a manta.

Com o cacau, os antigos mexicanos preparavam uma bebida cerimonial cujo consumo ficava restrito aos nobres e aos guerreiros: o chocolate. Uma forte restrição pesava sobre o consumo do cacau, e os plebeus só podiam beber pulque, bebida alcoólica obtida do agave. Esse tabu reforçava o poder da nobreza, pois eram atribuídas ao chocolate propriedades mágicas: era o alimento dos deuses.

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*Cacaueiro com seus frutos (Theobroma Cacao)

Talvez fosse associado ao chocolate o sangue dos sacrifícios humanos oferecidos aos deuses, e especificamente do sacrifício que consistia em arrancar o coração das vítimas em honra ao deus Quetzalcóatl-Kukulcã (a serpente emplumada).

Segundo os mitos mexicanos, Quetzalcóatl, "Jardineiro do Paraíso", introduziu o cultivo do cacau entre os homens quando vivia em Tula, e ao partir para o litoral enterrou o "dinheiro" que circulava então: conchas, plumas e pedras preciosas. Então a moeda-cacau se revestiu dos atributos mágicos do deus do qual se originara.

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*As "Moedas-cacau" dos astecas e maias*

Os astecas foram os últimos senhores do vale do México. Esse florescente império, baseado no domínio sobre os povos que até então haviam disputado a posse do vale, devia sua prosperidade ao tributo de 38 províncias, entre elas a de Soconusco, que, segundo o Código Mendoza, tributava 400 cargas de cacau das 980 que o Estado consumia.

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*Pirâmide de kulkukan, conhecida como "O Castelo", em Chichén Itzá, uma das
grandes metrópoles da civilização maia-tolteca, ao norte de Yucatã*


O VALOR DE TROCA DO CACAU NA SOCIEDADE MAIA

O cacau circulava desde armazéns especiais, chamados "casas do cacau", até os templos e quartéis militares, que representavam a grandeza imperial do México-Tenochtlitlã e suas cidades aliadas e onde, segundo os cronistas, os soldados astecas consumiam grandes quantidades de chocolate.

Entre os maias, à diferença da sociedade asteca, a elite política coincidia em geral com a elite comercial, e o cacau entrava na vida social graças ao comércio, e não como tributo. Em Yucatã o intercâmbio coexistia com uma produção equivalente de mantas, o que punha em relação de valor todas as mercadorias,inclusive certas terras, cuja produção era enviada ao mercado. Da necessidade de utilizar a mão-de-obra das comunidades camponesas nasceu a escravidão produtiva: os homens eram comprados e vendidos por cacau. Segundo Diego de Landa, o cronista dos maias de Yucatã, "o oficio a que mais estavam inclinados (era) o de mercadores, levando sal, roupas e escravos para as terras de Ulua e Tabasco, trocando-os todos por cacau e contas de pedras mais finas e melhores..."

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*Reprodução de uma cidade pré-colombiana antes da chegada dos espanhóis no séc. XVI*

O aumento da produção de cacau, graças aos escravos maias de Yucatã e também astecas, favoreceu provavelmente a circulação de cacau entre as classes baixas, sempre sob o controle da nobreza. Diversas crônicas coloniais e etnográficas assinalam que o cacau era usado como oferenda e doação nos ritos de passagem, como casamentos e funerais.

Que papel cabia ao cacau na acumulação de riqueza? Os grãos de cacau tinham que ser consumidos no prazo de um ano ou pouco mais. Mas as diferentes estruturas sociais dos astecas e dos maias determinavam também comportamentos diferentes a esse respeito. Assim, no vale do México, os comerciantes tinham que se mostrar muito discretos para não ofender o imperador com suas riquezas. Por isso, segundo Frei Bernardino de Sahagún, vestiam-se humildemente, inclusive com mantos rasgados. A cobiça da nobreza obrigava os comerciantes pochtecas a consumir seu cacau em grandes quantidades, a ofertá-lo nos templos ou entregá-lo como donativo.

No México, o cacau estava ligado ao prestígio e simbolizava uma posição social. Em troca, entre os itzas de Yucatã a riqueza do cacau, da qual faziam alarde os grandes senhores com seus numerosos escravos e seus palácios decorados com grande refinamento, servia também para estimular a produção, já que ele podia ser aplicado em cultivos comerciais e na aquisição de mão-de-obra. Por essa razão, provavelmente os espanhóis conservaram o uso monetário do cacau em Yucatã e substituíram a manta pelo Real, a moeda espanhola como medida de valor, sempre em relação com as flutuações da produção de cacau.

No entanto, ainda em pleno século XIX, o cacau seria utilizado para pagar salários em Yucatã e outras regiões da América Central, como se lê no testemunho do viajante norte-americano J. L. Stephens, em 1842: "Notei (...) que os grãos de cacau circulavam entre os índios como moeda. Em Yucatã não há moeda de cobre nem moeda menor que a de meio real (...) Como os salários dos índios são baixos e os artigos que compram são realmente necessários para a vida ... esses grãos de cacau ou partes de um meio real são a moeda mais comum entre eles."

*Fonte: O Correio da Unesco - Março 1990, Ano 18 nº 3

2 - Conchas na África: viewtopic.php?f=59&t=86266

Desde tempos remotos até o século XX, inúmeros objetos foram utilizados como moeda na África subsaariana: varetas ou pulseiras de metal, alguns tecidos, sal, pérolas, botões de camisa e conchas. Estas últimas, muito difundidas, foram os meios de troca que circularam em áreas de maior extensão.

Moluscos de origem marinha, as conchas de cauris, marginelas e olivas foram as que se destinaram com maior frequência a esse uso. Os cauris (Cypraea annulus ou Cypraea moneta) são conchas brancas ou amarelo-claras, do tamanho de uma amêndoa. A valva dorsal é convexa, enquanto a ventral apresenta uma fenda. São encontradas apenas em mares quentes, principalmente no Pacífico Sul e no Oceano Índico. A maioria dos Cauris que circulavam na África durante mais de mil anos procedia dos arquipélagos das Maldivas e das Laquedivas, no sudoeste da Índia, e das Ilhas Zanzibar e Pemba, ao largo da costa oriental africana.

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*Index Testarum Conchyliorum (1742) de Niccolò Gualtieri*

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*Cypraea Moneta*

Despachados como mercadoria em seu local de pesca ou de coleta, os cauris frequentemente serviam de lastro para os navios árabes, judeus ou europeus que os transportavam até os portos africanos, nos quais eram novamente vendidos como mercadoria.

As Marginelas (Marginella ou Marginellidae) são moluscos marinhos de concha pequena e colorida, principalmente as procedentes das costas ocidentais da África. Também são encontradas nas regiões marinhas intertropicais da América, particularmente no Brasil. Alguns tipos de Marginela abaixo:

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*Marginella Mosaica*

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*Marginella Nebulosa*

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*Marginella Gemma*

Brilhantes como ágatas e mais compridas que os cauris, as olivas compreendem mais de 300 espécies. A mais utilizada como moeda na África subsaariana era a Olivancillaria nana. Recolhida nos arredores de Luanda (Angola), ela constituía a "Reserva monetária" exclusiva dos reis do Congo até a chegada dos portugueses à região, no final do século XV.

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*Olivancillaria nana*

A ÁREA DE CIRCULAÇÃO DAS MOEDAS-CONCHA

Até o século XVI, o nzimbu, nome congolês da olivancillaria nana, circulava no reino do Congo, enquanto a marginela se limitava à bacia do Níger e o cauri difundia-se na região que constituíra posteriormente a África Ocidental e, em certa medida, na África Central.

Entre o século XVI e o final do século XIX, do Senegal a Uganda, do Sahel à Costa dos Escravos (Golfo da Guiné), o cauri foi mais difundido que qualquer outra moeda-concha. Mas foi pouquíssimo utilizado no Saara e jamais chegou a se implantar na África do Norte ou na África Austral.

Esse período marca também o apogeu da circulação das marginelas nas Áfricas Ocidental e Central, onde eram utilizadas pelas etnias da bacia do Congo em suas transações comerciais.

Já as olivas, sempre utilizadas exclusivamente pelos bantus, parecem jamais ter circulado fora das fronteiras congolesas. Para arruinar os reis do Congo, os portugueses trouxeram das costas brasileiras outras espécies de olivas, além de cauris do Oceano Índico. Dessa forma, paulatinamente o nzimbu foi retirado da circulação monetária.

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*Valvas dorsais e ventrais da Cypraea argus*

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*Valvas dorsais e ventrais da Cypraea onyx*

Os portugueses exportaram ainda olivas de Luanda e introduziram-nas como moeda fracionária, juntamente com os cauris, no tráfico de escravos negros no Brasil colonial.

As conchas não eram simples objetos de troca, pois possuíam todos os atributos das verdadeiras moedas. Como padrão e reserva de valor, constituíam à sua maneira instrumentos de câmbio e eram símbolo de riqueza.

MOEDAS VERDADEIRAS E FICTÍCIAS

Enquanto moeda verdadeira, as conchas permitiam adquirir inhame, facas, bois ou escravos e remuneravam qualquer tipo de serviço. Enquanto moeda fictícia, serviam igualmente como medida de valor para fixar o preço de algumas mercadorias, sem forçosamente intervir em seu pagamento. No século XIX, o explorador francês Louis Gustave Binger transcreveu a conclusão de um acordo entre dois comerciantes do norte de Gana: "A cabaça de sal vale 2000 cauris; o cento de kolas, 1000 cauris. Ofereço-te então 200 kolas por uma cabaça de sal".

Portanto, as conchas favoreciam as transações e constituíam excelentes indicadores da variação no tempo e no espaço do valor das mercadorias. Para maior comodidade, eram agrupadas para formar múltiplos: depois de perfuradas, eram atadas em conjuntos de 12, 20, 40 ou 100 unidades, segundo o sistema de numeração utilizado no espaço comercial em que circulavam.

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*Conchas usadas como adorno, tendo ao peito concha maior, símbolo de riqueza na Papua Nova Guiné*

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*Bailarino retratado numa cédula moderna de 5 kinas apresentando um escudo com uma moeda-concha incrustada*

Assim como os cauris, os musangas, discos de concha de caracol que circulavam em algumas regiões da África, eram atados através de um orifício central para formarem colares. dez colares, medidos da extremidade do dedo maior ao pé do calcanhar, no início do século XX, valiam um doti ou 3,60 m de tecido azul; dez colares medidos do dedo menor ao calcanhar valiam um doti de qualquer pano de outra cor.

Essas moedas-concha da África subsaariana deram origem, em algumas regiões, a verdadeiras políticas monetárias. As autoridades tradicionais ou políticas - onde existia um poder centralizado - asseguravam sua circulação e regulamentavam sua importação. Ao tomarem medidas para evitar a superabundância de conchas, geradora de inflação, ou sua escassez, que dificultaria as transações comerciais, os soberanos exerciam um verdadeiro poder econônico. De Abomé à Costa dos Escravos, assim como no Congo, eles praticavam uma política monetária rigorosa, de reconhecida eficiência.

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*Argola de cobre para o tornozelo, utilizada como moeda no Congo*

Desde o início da era colonial as conchas começaram a perder paulatinamente seu valor monetário e deixaram de intermediar as transações comerciais. Atualmente, apenas os cauris continuam a circular, ainda que muito timidamente, entre os povos do sudoeste de Burkina Faso e do norte de Gana. É a única região do mundo onde conseguiram conservar em parte sua função de moeda. Só não se sabe até quando...

*Fonte: O Correio da Unesco, Março de 1990 - Ano 18 Nº 3
*Fotografias retiradas da internet

Ao passo de novas pesquisas, irei acrescentando ou editando o tópico, complementando o assunto.
Espero que torne-se de grande valia para os colegas numismatas. :thumbs:

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